De jeito nenhum

Me sinto uma máquina de escrever em um mundo de computadores. Sou uma VHS em uma casa que não tem vídeo-cassete. E não estou rebobinada. Tenho um quê de caixinha de CD rachada. Às vezes, acordo meio relógio-cuco. Sem ninguém ter me dado corda. Mas quando me olho no espelho – espelho quebrado que sou – vejo algo mais. Enxergo uma máquina que segue escrevendo. Uma fita que contém memórias não reveladas. Carrego um catálogo de músicas dentro de um coração lacerado. E mesmo quando acordo sem corda, tenho algo valioso: tempo. E esse, eu não perco de jeito nenhum.

Uma valsa

Aos meus pais, juntos há 51 anos.

Tudo começa no olhar. Ele a vê. Impressa na íris, a imagem se traduz em palavras. A boca fala, os lábios beijam, os dentes sorriem. A mente sabe. Ela o decifra. As mãos se tocam e os corpos se enlaçam. Um abraço ou uma história saindo do rascunho. Os pés andam juntos, ritmados, até a caminhada se converter em uma valsa. Da dança, uma mudança, duas, três. Os ouvidos escutam algo além da música: um choro. O cheirinho de bebê na casa. Um, dois, três. O nascimento do amor materno, paterno, eterno.

Enquanto tudo muda – ou se reconfigura – eles seguem dançando.

Um, dois, três. Um, dois, três. Um, dois, três…

Atropelamento

Meu corpo estatelado no chão. Minha mãe sempre disse que moto era uma roubada. Mas eu assisti Easy Rider, e não deu outra. O motorista do carro fala comigo, tenta me manter acordado. Um passante liga para a ambulância. E o resto do mundo segue. E é só nisso que eu penso. A moça louca para voltar para casa buzina. Eu não dou um pio, o mundo grita. O menino de skate para cinco segundos para matar a curiosidade. Eu, zoológico; o mundo, visitante. O moço do prédio à frente dança Beyoncé pelado próximo à janela. Eu no pause, o mundo no play. Dezenas de pessoas passam, me veem e não fazem nada. Eu, invisível, o mundo, previsível. A ambulância chega e as luzes giram e o mundo gira e a minha cabeça gira e as luzes giram e o mundo gira e a minha cabeça gira e as luzes giram e o mundo gira e a minha cabeça gira…

Desacordo

Não é o meu tipo. Não cabe na minha vida. Não tem meu número, e eu não ando descalço. Não tem na cor que eu queria. Até tem, mas acabou. Não tá no mesmo nível. Não tá no mesmo tom, e não sou eu o desafinado. Não foi o que a gente combinou. Não dá pro meu bolso. Não tá pro teu bico. Não é o meu dia. Não é da tua conta. Não é do meu feitio, mas…

Quem sabe?