Meu Carnaval é você

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ilustração: Cassiano Rodka

Meu Carnaval é você.
Sua presença chega forte na avenida e preenche cada ala como o som do repique. Seu sorriso é meu carro-chefe, me põe em cheque, me faz cantar. Eu sambo por você enquanto seu olho me contorna. Eu sou sua musa, um chute na trave, e ela já sabe. Deixo você sem graça, sou o sabor da sua cachaça. Você me bebe e eu entorno você, como já é de costume. Seu bafo de cana é meu perfume. Debaixo da máscara, eu vejo você e mais nada. No seu coração, sou eu a batucada.

É também você a minha Quarta-feira de Cinzas.
Os restos de purpurina no cabelo e o gosto amargo da catuaba às 10 da matina. Meu pijama suado e as serpentinas na sola do pé… Já sabe quem é? Foi bom e foi você. Mas agora você já era. Na hora do banho, lá vai você escorrendo pelas minhas pernas, descendo rápido pelo meio dos dedos, derramando-se em memórias, fazendo a maquiagem virar careta, se esvaindo no ralo como um pierrô na sarjeta.

Três andares

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por Cassiano Rodka

Instruções para ler o texto: leia todo em voz alta. Quando houver parênteses, leia sussurrando.

São três andares e eu não vou sair vivo daqui.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém. Um lado leva a outro. Nada ao redor.

Revisando.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém
(porque eu não vou fazer um só som até você vir me pegar.)

Canção folk

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por Cassiano Rodka

Sou como uma canção folk. Simples e desnudo, me exponho a quem quiser me enxergar. Tenho meu coração estatelado no chão, transeuntes no celular. Meus dedos beliscam as cordas na tentativa de te acordar. Meus acordes ninguém escuta, mas eles seguem a cantar. Capturo o sol, vou de ré, que dó que dá. Meu si é sempre menor, minha canção eu sei de cor. Levo nas costas o violão, à espera de um trem que talvez nem venha me buscar. Passo no rádio da senhora, não no streaming do rapaz. Estou refletido nos teus óculos, ricocheteando no teu olhar. Os tempos são outros. Os outros, nem aí. Um dia, eu fui. Hoje, eu vou.

Se perdeste o trem onde eu estou, nosso momento já passou.
Lá de longe, eu sigo reto. Novo show.

O segundo capítulo

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por Cassiano Rodka

Encontrei um livro atirado no meio do caminho. A capa era linda, o suficiente para eu me abaixar e pegar o exemplar. Comecei a ler e, logo no primeiro capítulo, fiquei fascinado com a história. O enredo era envolvente, os personagens prometiam um grande desenvolvimento psicológico, a interação entre eles era ótima, e a trama parecia ser diferente de tudo que eu já havia visto…

Mas aí a surpresa!… Não havia segundo capítulo!… As páginas estavam em branco. Sem uma palavra. Ah, a frustração!… Eu já havia me envolvido tanto, precisava saber para onde aquela história iria. Não contente com a falta de continuidade, decidi que era preciso tomar as rédeas daquela situação. Sentei na calçada e me pus a escrever. No início, parecia um pouco conturbado e eu não tinha certeza se eu daria conta de manter o nível do primeiro capítulo. Mas, aos poucos, a história foi tomando impulso. Os personagens eram excelentes e me ajudaram um bocado. Logo logo estavam a tomar suas próprias decisões, eu só precisava empurrá-los de leve com a ponta da minha caneta. O enredo se costurava tão naturalmente que era como se ele estivesse me controlando e não o contrário. Cheguei a pensar que nada que eu havia feito anteriormente poderia chegar perto de superar aquela história.

Depois de algumas boas páginas escritas, uma segunda surpresa!… Havia um terceiro capítulo! Depois de páginas e mais páginas de folhas brancas? Uma provável má impressão do livro. Talvez fosse esse o motivo de o terem abandonado no caminho. Sentei no meio-fio novamente e me pus a ler. Curiosamente, o capítulo começava com uma certa continuidade daquilo que eu havia escrito. Me deu uma estranha, mas boa sensação. Parecia que a história ia, de fato, tomar a direção que eu estava prevendo. Mas alguns personagens começaram a tomar atitudes que eu não esperava… A história se desdobrou por curvas inusitadas e eu não tinha mais o poder de contorná-la com a minha caneta para pô-la de novo no caminho que eu pretendia. Começou a ficar impossível de seguir aquela leitura… Uma tristeza se apoderou de mim e atirei o livro no chão. Segui em frente sem olhar para trás. Triste em saber que alguém, algum dia, o encontraria…

Este exato momento

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por Cassiano Rodka

Nada me encanta mais do que este exato momento. O inigualável sabor do início de algo que não sei bem ainda o que é, mas que será o que for em breve. É a luz refletindo na cabecinha do bebê que chega ao mundo chorando. É a primeira frase de um livro que reconheço que vou gostar já nas primeiras palavras. É Mrs. Dalloway indo ela mesma comprar as flores, é a busca pela Maga – encontrarei a Maga? – e são os olhos no teto, a nudez dentro do quarto. É como assistir um filme e torcer pelo herói que, veja bem, sou eu mesmo. É o primeiro registro da (provável) melhor viagem da minha vida. É o gosto do café às nove da manhã, o fechar dos olhos na última hora do dia. É o inaugural e incerto passo em uma outra direção. Qual? Outra. É o aceitar da transformação, o atrapalhado bater das novas asas. É o convite que te faço para entrar na minha vida, bagunçar tudo, mudar os móveis de lugar e achar teu próprio espaço no meu álbum de fotografias.

Deixa estar

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por Cassiano Rodka

Sei que estou apaixonado quando te vejo piscar. Num simples e natural gesto, me ponho a sorrir. Vibro estupidamente com o teu desaparecer. O teu sorriso manso, o teu silêncio longo. Sei que te amo porque não tenho a menor razão para te querer. Num coçar de barba, num esticar de perna, num respirar, me sinto maior. Me pelo em saber que posso te alterar. Clarear teu gesto, prender teu rosto, te apagar. Se nessa distância é possível te ter, deixo estar. E sigo cego a tatear; em um cálice vinho, em uma mesa de bar.

Encontrado na praia

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por Cassiano Rodka

Entre o mar e a cidade, havia um homem. Prostrado na areia, olhando adiante. Ele não estava aqui, nem lá. Habitava um não-lugar. Não era parte da paisagem urbana ou da metrópole do oceano. Os dedos dos pés agitavam-se entre os grãos, afoitos pelo movimento. A brisa batia leve, sem direção exata. O som das gaivotas questionava sua presença. Os pensamentos vagavam por entre as tatuíras e escondiam-se – misteriosos – debaixo das conchas. Sua sombra agigantava-se às costas sob o sol nascente. Seu reflexo desconstruía-se à frente no vai-e-vem das ondas.

Havia o mar. Havia a cidade. Entre um e outro, um homem foi encontrado na praia.

Jardim de estátuas

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por Cassiano Rodka

Pouco importa o quanto tempo ficamos dentro da casa. Nosso destino ali era mesmo visitar o jardim.

Quando nos libertamos daquele espaço fechado, fomos surpreendidos por uma grande área aberta com diversas estátuas. Havia um círculo de esculturas em tamanho real, homens e mulheres acinzentados, com expressões faciais quase nulas, leves sorrisos nos rostos no que parecia ser uma grande festa. Eu nunca havia visto nada igual.

O jardim era imenso, tomado pelas mais diferentes figuras, todas com muitos detalhes, cada uma em uma posição diferente, um trabalho certamente de anos. As mãos delicadas seguravam taças, bandejas, cornucópias. Algumas figuras estavam nas pontas dos pés, como se estivessem flutuando, em êxtase. Haviam nos falado que era um lugar especial, mas não estávamos preparados para tanta beleza. Entramos em meio ao círculo, observando, estupefatos, a grandeza daquela construção. Uma das mulheres tinha sua cabeça pendendo no ombro de outra, um cansaço ébrio compartilhado. Um homem seminu bebia de um chifre com sua cabeça pendendo para trás para garantir que não sobrasse uma só gota.

A noite colaborava com o espetáculo. O céu exibia nuvens espiraladas, que pareciam ter sido moldadas especialmente para enquadrar as cenas compostas por aqueles seres inanimados. A festa a que eles pertenciam aparentava ser uma grande celebração, e nossas mentes trabalhavam em imaginar a que ou a quem ela era dedicada. Quanto mais andávamos por entre as estátuas, mais éramos tragados para dentro daquele universo. Era possível escutar os sons de suas risadas e o burburinho de várias vozes falando ao mesmo tempo. Aos poucos, fui percebendo a presença de alguns seres mitológicos misturados aos humanos, provavelmente a representação de deuses. Talvez a festa fosse para eles. Um ser metade homem, metade animal abraçava por trás uma mulher, segurando seu braço em direção a um cálice. Talvez a festa fosse regida por eles. Uma figura feminina com três olhos tinha seus dedos pousados nos ombros de uma mulher sentada com um bebê no colo. Ambas observavam silenciosamente a criança.

Sem dizer nada, minha irmã voltou-se para o caminho que nos devolveria à casa. Minha mãe pegou o meu braço e começamos a caminhar levemente, com um passo hesitante, dissipando com certa dificuldade o que havíamos contemplado naquele cenário.

Senti um movimento à minha esquerda. Outro logo em seguida, alguém correndo por trás de nós dois. Em um susto, vi com clareza um dos homens acinzentados passando apressado entre mim e minha mãe, nos separando por alguns instantes. Logo, várias estátuas ao meu redor botavam-se em disparada em uma mesma direção. Cada uma despertando no seu próprio tempo, mas todas com um desejo atribulado de sair dali. Repentinamente, uma multidão de figuras passava por nós sem grandes cerimônias, quase derrubando quem estivesse parado. O silêncio fora trocado pelo som de seus corpos se movimentando. Não se escutavam vozes, apenas movimento. Seus olhares e suas intenções continuavam incompreensíveis. Minha mãe estava um tanto assustada, mas ao mesmo tempo seus olhos brilhavam com um diletante fascínio.

Em meio ao tumulto, um estouro. Uma das esculturas havia tombado. Só então percebi que haviam diversas figuras descolando-se de algumas colunas que circundavam o jardim. Gárgulas tentavam alçar voo e despedaçavam-se aos nossos pés. O barulho tornava-se aterrador. Pedaços de pedra se acumulavam ao nosso redor, mas ninguém cessava sua deserção aflita. Não sei dizer por quanto tempo isso se deu, mas a sua interrupção pareceu tão repentina quanto o seu início.

Quando o silêncio tomou conta do jardim novamente, não havia sinal de nenhuma das estátuas. Em um mar de escombros, havia apenas minha mãe, minha irmã e eu. Abraçados, com expressões indecifráveis, em um semicírculo. Estáticos.

Um novo ano

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por Cassiano Rodka

Espero há quase duas horas.

Sentado em uma desconfortável cadeira, aguardo a vinda de uma enfermeira que parece a Bette Midler. Eu achei ela a cara da Bette Midler. A sala de espera parece ter uma mistura de pacientes, acompanhantes e crianças que não sabem bem o que estão fazendo ali. No ar, paira aquele clima tenso que parece ser uma regra em todos os hospitais.

Minha espera é coberta de angústia, talvez sem motivo, eu sei. Mas não gosto de hospitais. Sinto que as doenças estão à espreita nas sombras, aguardando minha distração para se jogarem na minha jugular. Me sinto disponível a todas elas, como se estivesse ali sentado esperando que uma me escolha.

O hospital tem um falso silêncio. Há vários barulhos ao meu redor, mas a gente se acostuma com todos e eles transformam-se em uma apreensiva trilha sonora. É uma maçaroca de vozes, choros, conversas, ruídos de aparelhos hospitalares e aquele tique-taque ameaçador do relógio…

Ouço a senhora ao meu lado comentar com uma jovem que já teve câncer duas vezes. A enfermeira que parece a Bette Midler surge na minha frente e eu me levanto. Opa! Ela sorri e diz que não é a minha vez ainda e leva, num semiabraço, uma velhinha com um andadouro.

Um jovem de boné e óculos escuros passa com uma receita na mão e (o que eu imagino que sejam) os seus remédios no bolso. Eles fazem um barulho de chocalho a cada passo, dando um ritmo fúnebre a sua caminhada. Não sei o que ele tem, mas a lenta marcha faz parecer que não seja nada bom. E eu continuo esperando.

Pode parecer bobagem, mas essa espera sempre me faz lembrar que estamos sempre aguardando pelo dia em que a nossa história acaba. Não acredito em ressurreição, portanto creio que quando tudo termina… Bem, termina de vez. Cada um de nós, da senhora com andadouro à criança que não sabe bem por que está ali, está em uma lenta caminhada em direção ao fim. Apocalíptico, eu? Talvez. Mas é verdade.

A enfermeira que parece a Bette Midler para na minha frente. Agora sim, é a minha vez. Eu a sigo, nervoso, numa marcha vagarosa parecida com a do cara de boné. Sinto um medo de sei-lá-o-quê, aquela incerteza do que vem pela frente. Escuto a maçaroca de sons, mais indefinida do que nunca. Com exceção do tique-taque do relógio…

“É aquela ali”, me diz a Bette Midler batendo a sua unha comprida contra uma janela de vidro.

E eu a vejo pela primeira vez.

Inquieta, mexendo as mãozinhas. Sua cabecinha pequenina tem pouquíssimos cabelos, os primeiros habitantes daquela carequinha lunar. O narizinho é tão minúsculo que mal aparece em seu rostinho. A boquinha, meio torta e babada, se movimenta como se já quisesse manifestar as suas primeiras ideias. Ela é linda. Não, sério! Ela é a coisa mais linda que eu já vi na vida. Eu olho incessantemente para ela e posso jurar que ela olha para mim.

E a minha vida recomeça.

Sociedade dos antissociais

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por Cassiano Rodka

Nossa organização começou de forma secreta. Parecia algo necessário, então alguém fez acontecer. Não sabemos exatamente de quem foi a iniciativa, mas também ninguém quis perguntar. O certo é que temos agora um grupo organizado e nossa voz será ouvida – caso algum dia quisermos falar.

Cansamos de ser repudiados pela massa comunicativa. Não almejamos ser expansivos ou carismáticos, nem queremos ser convidados para todos os seus eventos sociais. Estaremos presentes em casamentos e enterros, viajaremos no dia do seu chá de fraldas e estaremos doentes na noite de sua formatura. Não leve a mal, é a nossa natureza.

A verdade é que não compreendemos esse desespero pelo contato social constante. Apoiamos imensuravelmente as práticas solitárias, da literatura à masturbação. Se dependesse de nós, as salas de cinema teriam divisórias entre as cadeiras e as tele-entregas seriam feitas por robôs. Disponibilizamos um espaço para que os membros tragam esse tipo de proposta para tonar o mundo um pouco menos invasivo. Temos um local bem estruturado onde fazemos nossos encontros anuais. Dizem que é bem legal. Não sei, nunca fui.

Fazer parte de uma sociedade é algo novo para nós, portanto ainda temos muito a aprender. Raramente fazemos reuniões, pois ninguém aparece mesmo. As decisões são usualmente tomadas por e-mail ou por WhatsApp. Mas, de vez em quando, é necessário entrarmos em contato de forma mais pessoal. Aí usamos o Skype.

Os membros acabam se conhecendo mais por se encontrar por acaso na rua. Nos reconhecemos pela falta total de contato visual ou pelo desdém externado pelos extrovertidos. Às vezes, escuto um dizendo: “Esse aí é um antipático de carteirinha”. Quando olho de soslaio para ver quem é, percebo que é mesmo um sócio – ou antissócio, como preferimos chamar. Aí nos cumprimentamos com nossa saudação secreta: cabeça baixa e olhar isento. Depois seguimos cada um para o seu lado antes que aquilo vire um bate-papo.

Nosso dia há de chegar. Quando marcharmos pela rua, será só em pensamento. Quando levantarmos nossa voz, o mundo escutará um sussurro. Em nosso manifesto taciturno, só almejamos uma coisa: nada. Isso mesmo: NADA!

Apenas ignorem nosso grito e vão plantar batatas.