Antes de você

Fotografia: Angelina Casado

É como o último livro a preencher uma estante. De repente, olhamos para ela e a percebemos completa. Cada um dos exemplares enfileirados como se fossem palavras escolhidas a dedo para compor um poema. Tudo no seu devido lugar. O sentimento é gigante. É uma satisfação cachalote que nos enche de esperança. A possibilidade de ter cada uma daquelas páginas lidas – não por um, mas por todos nós. As traças vão aparecer novamente – não se engane. Mas eu (e você) vamos esmagar uma a uma, espanar o pó com gosto e admirar (hoje e sempre) aquela estante completinha. 

Tudo no seu devido lugar

É como o último livro a preencher uma estante. De repente, olhamos para ela e a percebemos completa. Cada um dos exemplares enfileirados como se fossem palavras escolhidas a dedo para compor um poema. Tudo no seu devido lugar. O sentimento é gigante. É uma satisfação cachalote que nos enche de esperança. A possibilidade de ter cada uma daquelas páginas lidas – não por um, mas por todos nós. As traças vão aparecer novamente – não se engane. Mas eu (e você) vamos esmagar uma a uma, espanar o pó com gosto e admirar (hoje e sempre) aquela estante completinha. 

O fim de uma era

É como um berro que desagasta a voz.
As palavras vão ficando magrinhas,
quebradas, inaudíveis.

A camisa não cabe mais,
o sorriso não abre mais,
eu espero que acabe, mas…

Uma espiadela para trás.
Um carinho no talvez.
E bye bye!

É o capítulo final.
Um salto mortal.
A batata tá sem sal.

Um presente perfeito
para o eu do passado.
Obrigado!

Mas vai
Que essa era
já era.

Machu Picchu

Olho para trás
Há um pedaço de passado
escondido entre as montanhas
Chamam de civilização

Olho para os lados
Há construções de pedra
separando povo e divindades
Chamam de religião

Olho para dentro
Há um sentimento vasto
entrançado em fascínio e desengano
Chamo de revelação

E enfim olho para a frente
Há uma névoa ocultando um caminho
bifurcado entre o legado e a esperança
Chamo de decisão

Monstro

Era um monstro. Desde que bati o olho, tive certeza. Tentei avisar, mas alguns pareciam não me escutar. Ou não queriam. Eu apontava para o canto escuro e dizia: é um monstro! De nada adiantava. Um parente aproximou-se da escuridão e não viu um monstro, viu um espelho. Um vizinho escutou o rosnado do bicho e disse que eram sábias palavras. Minha colega de trabalho disse que não percebia diferença entre o monstro e um ser humano. Havia algo errado. E eu não demorei a perceber que a criatura tinha um poder de hipnose e mimetismo. Eles olhavam para ela e transformavam-se em parte de uma grande besta. Cada vez maior, parecia impossível de contê-la. Mas, dia a dia, eu encontrava alguém que via o monstro. Enxergava com precisão cada detalhe. E fomos nos conectando, uns aos outros, crescendo em número – e em boa visão. Nos demos as mãos e, dessa união, foi surgindo uma corrente. Mas não uma qualquer. Uma corrente tão longa e tão maciça que foi possível – com coragem e resiliência – enlaçar o monstro e derrubá-lo no chão. Chorou, esperneou, mas foi vencido. A melhor maneira de domar um pesadelo é transformá-lo em sonho.