Por trás da casca

No teu olho, o reflexo de uma casca. 
Não sou eu. 
É um invólucro todo teu. 
Uma imagem que reflete o que pensas de mim. 
Não o que reflito eu. 

Na tua mente, a silhueta de uma mentira. 
Não sou eu. 
É uma crosta toda tua. 
Um contorno que revela tuas imagens de mim. 
Não o que revelo eu. 

No meu ser, sinto-me sempre despida. 
Sim, sou eu. 
É uma vida toda nua. 
Mas teus olhos me veem e me cobrem 
de cascas 
de esperas 
de despedidas. 


Este texto foi escrito dentro do Desafio da Lagosta, que instigou a equipe do PáginaDois a produzir conteúdo partindo do inusitado tema “lagosta”. 

A caravela de lixo

“Lá vem o caminhão de lixo!”, gritava a mãe de Davi.

Para os adultos daquela pequenina cidade do interior, era hora de levar os sacos pretos (cheios de tudo aquilo que eles haviam dispensado de suas vidas) para fora de casa. Era preciso correr para não perder a passagem do veículo. Imagina ter que levar de volta pro lar tudo aquilo que já havia sido descartado e considerado sem
serventia. Uma calamidade!

Mas nos olhos de Davi, aquela chegada era PURA AVENTURA. Ouvia de longe o caminhão se aproximando e sabia que tudo iria mudar. O som caótico de gritos incompreensíveis e um motor baderneiro que fazia a rua tremer… Ahh, música pros seus ouvidinhos!

Enquanto os adultos enxergavam um caminhão de lixo, os olhinhos curiosos da infância – ansiosos! – avistavam uma caravela com rodas se aproximando com intrépidos piratas. Um deles, o comandante, trazia uma mão no volante e a outra para fora da janela fazendo sinais indecifráveis para os outros aventureiros pendurados na traseira. Eles, é claro, entendiam tudo e berravam uns para os outros aparentemente em uma outra língua. Um idioma que ele, algum dia, dominaria. Sim, porque Davi sonhava em ser lixeiro. Queria navegar pelas ruas da cidade pendurado a bombordo, descendo sempre que necessário para capturar os sacos de lixo (ou seriam tesouros?) que os nobres cidadãos traziam desesperadamente para as mãos desses impetuosos corsários.

Quando o caminhão passava na frente de sua casa, o menino abanava para os parceiros de aventura. Eles sinalizavam de volta, pois sabiam – é claro! – que ele, um dia, também seria um deles. Assim que a caravela motorizada desaparecia em meio a um lindo e tóxico nevoeiro preto, a rua era preenchida por um silêncio com sabor de normalidade. Blergh!… Por alguns segundos, ele fitava o horizonte, sabendo que a aventura continuava além daquela misteriosa linha.

Mas, assim como as grandes embarcações, logo a mente de Davi mudava de curso. Sem seguir qualquer bússola, sua imaginação passava a vagar por outras ondas, levando o menino a desbravar novas terras, ilhas e outras maravilhas que só ele poderia explicar.


O texto de hoje foi inspirado em uma fotografia feita pela Brunna Stock, como parte de um desafio do coletivo cultural PáginaDois.

Adaptação

Não me adapto. Não me adapto. Calço o seu sapato. Mas não me adapto. Traço o seu caminho, sigo o seu compasso. Mas não me adapto. Não me adapto. Tomo o seu café, tomo o seu metrô, tomo na cara de cansaço. Não me adapto. Compro o seu sucesso, abraço o meu fracasso. Faço o que cê diz, não faço o que eu faço. Não me adapto. Não me adapto. Tomo o seu remédio, tomo o seu amor, tomo o seu lugar e não me adapto. Não sou daqui, não sou você e não assino esse contrato. Não me adapto. Não me adapto. Eu não me adapto.


O texto e a ilustração de hoje foram inspirados no curta Anima, de Paul Thomas Anderson, como resultado de um desafio feito pelo Pedro Cunha.

Obituário

Ilustração: Cassiano Rodka

Ela vem 
Ela sempre vem 
A caveira e a foice 

Deixa ela vir 
Mas vir com calma 
Não apressa esse coice 

Mas não 
Ele foi lá e cuspiu 
Abriu a porta e a trouxe 

Não um, mais mil 
A caveira e… foi-se 

Pra você 
que semeou a morte 
– nossa alma incendeia 
que abusou da sorte 
– chave de cadeia 
que abriu o nosso corte 
– e fez cara feia 

Fica aqui a minha lembrança:
Também morre quem semeia.


O texto e a ilustração acima foram inspirados na música “Nós Vai Tudo Morrer” do Lemoskine. Durante maio de 2021, a equipe do PáginaDois produziu textos, fotos e ilustrações inspirados em canções selecionadas por Cassiano Rodka. Confira as faixas escolhidas na playlist “P2 #4 | Desafio Musical” no Spotify.

O mundo de Davi

Foto: Isabel Dall’Agnol

Davi não entendia bem o que estava acontecendo, mas também não era bobo.

O mundo havia parado. Ele sabia disso. Os seus pais quase não saíam mais de casa. Quando ousavam colocar o pé na rua, disfarçavam-se. Como se as pessoas não fossem reconhecer a sua mãe ou o seu pai atrás daquelas máscaras. Os adultos têm cada uma…

A TV, tantas vezes proibida no passado, agora era a sua maior companhia. Seus pais chegavam a insistir para ele ir para a frente do aparelho. Mas ela tinha se tornado chata. Resolveu fazer com o aparato o mesmo que haviam feito com o mundo: colocou no “pause”.

Na varanda, com os olhinhos curiosos da infância, ele capturou a presença de blocos de montar. Contemplando cada pecinha, decidiu reinventar o mundo. O telhado serviria agora de base, as janelas seriam colocadas de ponta-cabeça, as pontes virariam pistas de skate. Tudo ganhava uma nova função.

Foi tomado de súbito por uma imensa alegria. Abriu um daqueles sorrisos gostosos em que a graça a gente nem sabe onde está. “Eureca”, ele teria gritado se soubesse o que isso significa. Mas epifania é coisa de adulto, então Davi só seguiu brincando.

O mundo continuou o mesmo. Mas o seu. Não o de Davi.


Texto inspirado em uma foto de Isabel Dall’Agnol como parte do desafio de novembro de 2020 do PáginaDois.

Não escute o que eles dizem

ilustração: Cassiano Rodka

“Faça menos, doe-se menos”
Não! Faça mais, muito mais.
Deixa eles implorarem pelo cinza
E cubra-se inteiro de vermelho.

“Coma menos, beba menos”
Nah! Coma um cacho, beba um tacho.
Lambuze-se de entusiasmo
E deixa respingar no cara ao lado.

“Opine menos, envolva-se menos”
Ah, tá! Meu amigo, senta lá!
Minha língua serpenteia minhas escolhas
Perfurando a cera quadrada do teu ouvido.

“Exponha-se menos, ame menos”
Pff! Veja a nuvem carregada chegando…
Enquanto eles abrem o guarda-chuvas,
Escancara inteiro o teu coração.

Soneto do amor materno

SONETO DO AMOR MATERNO (Isabel em flor edit)

ilustração: Cassiano Rodka

À Beatriz, minha mãe

Desperta ao som da minha manha
Disfarçando o peso do seu empenho
Desfaz o deserto por onde eu venho
Desenhando passos por entre as montanhas

Abençoa minha vida enquanto me banha
Asseando meus pés para um futuro ferrenho
Alimenta minha fome por leitura e desenho
Abrindo caminho para as minhas façanhas

Faz do carinho uma ação
Fabrica o suporte onde me encosto
Forja um ser em será

Traduz criança em criação
Traz forma a cada gesto que gosto
Transforma a manha em amanhã

Seja o outono

Seja o outono.png

ilustração: Cassiano Rodka

Como folhas secas, vocês serão esmagados. Um a um, lentamente, por pés cansados e cheios de chinfra. Cansa. A caminhada cansa. O sapato desgasta, mas não a esperança. Senhora teimosa ela, cotovelos sempre na janela. Ela aguarda para ver a banda passar. Alguma banda há de passar. Vai cair. Ele vai cair. Como folha seca. O som do sapato sobre a folha seca. Que som, meus amigos, que som! 

Que ventania foi essa? Parecia que ia levar tudo. Levou foi nada! O vento parou de soprar. Piano, pianinho. Deu lugar a uma chuva mansa que, em São Paulo, passa em 15 minutos e olha ali o sol. O sol trouxe você. Ou você era o próprio sol. O verão se instalou no meu relógio, iluminou cada segundo. E olha nós descendo a rua na grande parada. A banda tocando e a gente pisando nas folhas secas. O som das folhas se esfarelando, que música! Deixem os sapatos cantarem, meus amigos! 

Mas não esqueçam que as estações mudam. Na dança da mudança, não emudeçam. Sigam cantando. O tempo passa, como a banda. O calor dá lugar ao frio, as folhas voltam a crescer e o copo, mais uma vez, vazio. A parada não para. O coro aumenta. A bandeira agita. O outono retorna. Faz a folha cair novamente. Seja o outono. De novo e de novo. 

Deixa o Ano Novo ser um novo ano. Deixa mover, deixa seguir, deixa mudar. Deixa o sapato cantar.