Tão fácil

Pegou a mão dele. Sentiu que era tão fácil. Estar ali, estar com ele, estar bem. Destino? Nah, nada tão premeditado. Era a magia do acaso mesmo, que costura um coração do Norte a um do Sul. Ultrapassa fronteiras imaginárias e une cordões reais. Amarra dois em um. Mas com a corda solta, com o riso solto, pensamento solto. Um nó mal feito com muito carinho. O braço dele ao redor do outro parecia um laço. Embrulhados para o presente. Enlaçados nos cobertores, sonhavam. Nós se desfazem. Nós, não. 

Surfista do Tempo

Em ondas de areia clara e escura, eu surfo. Não fujo do passado, mas passo raspando, passando a mão na areia sem me comprometer. É um afago no eu pretérito, não um colo. Minha prancha segue firme e inabalável. Até eu cair, é claro. Ah, sim, eu caio. Mas como o carinha do Pitfall, eu encontro uma nova vida, pulo a areia movediça e sigo. Porque futuro é isso: uma vida extra. Não é sequência do presente, até porque o presente já era. Futuro é horizonte. É pra lá que eu surfo. Sem enxergar bem o que tem naquela linha distante. Pode ser praia, ilha, pirata ou sereia. Quem sabe uma baleia? Só sei que não é o que ficou pra trás. Poderia ser. Não quero. Quero envelhecer rejuvenescendo. Quero me embriagar de lucidez. Montar num cavalo marinho e brincar de ser mais eu. Eu agora, não eu pretérito. Precisamos todos rejuvenescer. Surfando nas areias do tempo. Caindo. Vida extra. Rumo a uma inalcançável linha que – veja bem – fica logo ali.

Clarice

Do conforto da escuridão, foi puxada para a claridade.
Ganhou essa missão ingrata de nascer primeiro.
Tateou, cheirou, lambeu, escutou e observou.
“Tá limpo, galera! Bora!”
Serviu de compasso para os irmãos.
Ora apontando pro Norte, ora pra Sorte.
Ora Lady Leste, ora Mae West.
Rainha do Sul com império no Sudeste.
Engatinhou, caminhou, correu.
E não parou.
Segue até hoje
na direção do amanhã.

Quando não há luz, escuridão.
Onde ela existe, Clarice.

Fuga nº4: Barro

Seria tão mais fácil fingir que nada aconteceu.
Soterrar a boneca no terreno fértil da memória,
deixar o balão seguir o caminho desgovernado do destino
e aceitar as escolhas do peixinho ao nadar em busca de si.

Mas o trauma é como água na terra.
Cria o barro.
E do barro, vem a perda do equilíbrio,
vem o desmoronamento de quem se é.

Todavia o barro também cria.
Cria objetos, cria arte, cria um lar.
Para esse barro, qual seria a sina?
Está nas mãos de uma menina.

Por trás da casca

No teu olho, o reflexo de uma casca. 
Não sou eu. 
É um invólucro todo teu. 
Uma imagem que reflete o que pensas de mim. 
Não o que reflito eu. 

Na tua mente, a silhueta de uma mentira. 
Não sou eu. 
É uma crosta toda tua. 
Um contorno que revela tuas imagens de mim. 
Não o que revelo eu. 

No meu ser, sinto-me sempre despida. 
Sim, sou eu. 
É uma vida toda nua. 
Mas teus olhos me veem e me cobrem 
de cascas 
de esperas 
de despedidas. 


Este texto foi escrito dentro do Desafio da Lagosta, que instigou a equipe do PáginaDois a produzir conteúdo partindo do inusitado tema “lagosta”.