Quando a gente diz não

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imagem: RDK

Vai lá
Estende a mão
Enlaça teus dedos nos meus
Faz crescer esse cordão
 
Acredita no tamanho dessa massa
Sente o alargar dessa intenção
Abraça o peso da leveza
Deixa rufar o coração
 
Não empunha a arma dos outros
Desenlaça essa corda no chão
Tira o nó do meu pescoço
Me entenda como irmão
 
Pois tem você e eu e eles
E, assim, uma nação
O som do sim seduz o incauto
Mas a coragem ecoa em um não

Aqui onde você está

Aqui onde você está_P2

por Cassiano Rodka

À tia Ruth

A mão da criança no coque
Dedinhos no cabelo, onde cada fio é um segundo
Desmonta o penteado como quem desafia o tempo

A mão do adolescente no pote de azeitonas
Dedos no vidro, onde um olhar carinhoso se esconde
Degusta cada minuto até o caroço

A mão do adulto é ocupada demais
Deduz o tato, o contato e paga o pato
Desvenda a sombra das horas que passaram num sopro

O tempo se aproxima como a água na beira do mar
Discreto e de mansinho e de repente a nos molhar
Desfaz o castelo, o colo e o carinho

Mas a distância entre nós, ela hoje não há
De certo, é isso que o tempo enfim nos dá
Desagua nossos momentos em um só lugar

Na padaria

Na padaria_P2

por Cassiano Rodka

Na padaria, o cheiro do pão novinho faz o mundo parar de girar por uns instantes. No vidro do balcão, o reflexo de um sorriso encontra a bomba de ganache. O ruído da máquina moendo o café é música para quem quer que passe. Na gritaria entre os atendentes, uma chuva de deleites. Se não tem mais mesa vazia, no balcão há sempre espaço.

Na padaria, o amargo da vida se perde por entre os doces. O avô conversa com os netos inquietos, cuca cheia de açúcar. A moça flerta com o telefone, luz azul brilhando em seu rosto. A atendente não anota os pedidos, os carrega na mente. Os colegas de trabalho reclamam – é claro – do chefe. O escritor, como bem lhe cabe, observa.

Na padaria, o relógio deixa de funcionar por uns minutos. Ali, o tempo não se perde, se encontra. Mesmo que não dure (como nada dura), cada segundo é confeito. E amassa o papel do doce, sorve o último gole da taça e a moça recolhe o prato.

Três andares

Três andares_P2

por Cassiano Rodka

Instruções para ler o texto: leia todo em voz alta. Quando houver parênteses, leia sussurrando.

São três andares e eu não vou sair vivo daqui.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém. Um lado leva a outro. Nada ao redor.

Revisando.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém
(porque eu não vou fazer um só som até você vir me pegar.)

Crossroads

Crossroads cachalote sem estrada_P2

por Cassiano Rodka

Ao Chuck, trôpego e constante

Diante da encruzilhada de um novo modo de pensar, o mundo se revela imenso. Grande como um cachalote, crescente como uma avalanche. Os pés se fincam na terra e os olhos se enchem de horizontes. Como a chegada de uma onda na praia ou um novo livro na estante.

O descolar da bunda do sofá e o lançar-se porta afora são magnólias postas ao vento enquanto a chuva, inconsequente, chora. O simples andar na rua torna-se revolucionário e consistente. Como o bater dos dedos nas teclas de um laptop, como um cálice borbulhante.

Me ponho desnudo no asfalto com a fluidez de água corrente. Conecto-me com o adiante seduzindo a serpente. Maçã não é pecado e o paraíso está posto na gente. Não é um ato de vandalismo, é o saborear a semente.

Quando o vento bate, eu o sinto nas costas. Não tanto um empurrão, um convite. Nem pra esquerda, nem pra direita, pra frente. Sem soprar escolhas ao pé do ouvido, apenas dirigindo a caminhada a um horizonte distante. Um desafio colocado na testa e eu me encontro caminhante.

Com o sabor inebriante das incertezas, sinto o passo firme em um instante. Como um sapato novo, onde o conforto (ainda) não está presente. Deixo os dedos reclamarem e as solas tornarem-se um tanque. Em cada tropeço, estou eu, uma pegada adiante.

A canção de Fausto

A canção de Fausto_P2

por Cassiano Rodka

De prazer em prazer
Quem é o próximo a entrar?
Fecha a porta e abre a boca
Não esquenta o teu lugar

Larga a máscara na entrada
E qualquer boa intenção
Deixa bater a porta
Mas não me mova o coração

Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?
Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?

De vazio em vazio
Quem te disse pra ficar?
Abre a porta e fecha a boca
Não espera eu ligar

Deixa a alma na saída
E o amargo da omissão
Larga de leve a porta
Mas não me leve o coração

Até quando eu vou seguir?
Perco a aposta pra ganhar
Até quando eu vou seguir?
E por quem eu vou cessar?

O início de algo

O início de algo_P2

por Cassiano Rodka

Lá de longe, você olha para frente.

É uma senhora distância. Não dá para entender bem ainda se é uma subida íngreme ou uma vertiginosa descida. Nesse momento, só uma coisa é certa: você não estará mais aqui.

O pé direito firma o chão, o pé esquerdo dá uma hesitada. Entre passo e contrapasso, uma linha costura uma nova caminhada. Pronto! Você já está em movimento. Desamarrou a corda do que havia antes, saiu navegante em busca do depois. Curiosidade como um vento, confiança no quadrante. Bússola mais perdida que avó em fliperama. Mas a embarcação segue o seu rumo.

Não demora a fecharem-se umas nuvens e choverem imprevistos. Nunca tardam. E dê-lhe balde e remendo e guarda-chuvas. Mas há orgulho no suor e beleza no improviso. E olha ali você e você e você e você se multiplicando em quatro e segurando as pontas. Estica esse troço que vai!

Não esqueça de delegar bem as tarefas. Relaxar e curtir a jornada é vital. Deixa o fotógrafo fotografar, o escritor escrever e o folgado folgar. Aprenda a sentir o desequilíbrio como uma dança. A maresia, como uma criança. Teimosa, mas ela cansa. Quer vomitar, vomite. Chorar? Chore. Mas não deixe que nada suje a luneta.

Seria um raio de sol surgindo no horizonte? Não olhe muito que cega! Vai deixando ele chegar e observe o que ele está iluminando. Quanta coisa nova ao redor que você nem esperava alcançar. Vai se ajeitando no seu novo habitat, mas também não se acostume muito que a inércia cria mofo. Pare um pouquinho, respire esse ar fresco e curta a vista.

Lá do alto, você olha para baixo.

Canção folk

Canção folk_P2

por Cassiano Rodka

Sou como uma canção folk. Simples e desnudo, me exponho a quem quiser me enxergar. Tenho meu coração estatelado no chão, transeuntes no celular. Meus dedos beliscam as cordas na tentativa de te acordar. Meus acordes ninguém escuta, mas eles seguem a cantar. Capturo o sol, vou de ré, que dó que dá. Meu si é sempre menor, minha canção eu sei de cor. Levo nas costas o violão, à espera de um trem que talvez nem venha me buscar. Passo no rádio da senhora, não no streaming do rapaz. Estou refletido nos teus óculos, ricocheteando no teu olhar. Os tempos são outros. Os outros, nem aí. Um dia, eu fui. Hoje, eu vou.

Se perdeste o trem onde eu estou, nosso momento já passou.
Lá de longe, eu sigo reto. Novo show.

Avisa o mundo

Avisa o mundo_P2

por Cassiano Rodka

Vai lá e avisa o mundo
Que tu tá preparado
Que não há nada que ele te jogue
Que não possa ser mastigado

Fala ali pra ele
Que tudo foi engolido
Sapo, príncipe, princípios
Tudo já foi transformado

Revela que todo mistério
Já foi por ti desvendado
Que não há truque ou mágico
Que possam fugir teu rugido

Diz tudo o que tu pensa
Sobre essa falta de rebolado
Baixa as calças do mundo
Deita e vira pro lado