Adaptação

Não me adapto. Não me adapto. Calço o seu sapato. Mas não me adapto. Traço o seu caminho, sigo o seu compasso. Mas não me adapto. Não me adapto. Tomo o seu café, tomo o seu metrô, tomo na cara de cansaço. Não me adapto. Compro o seu sucesso, abraço o meu fracasso. Faço o que cê diz, não faço o que eu faço. Não me adapto. Não me adapto. Tomo o seu remédio, tomo o seu amor, tomo o seu lugar e não me adapto. Não sou daqui, não sou você e não assino esse contrato. Não me adapto. Não me adapto. Eu não me adapto.


O texto e a ilustração de hoje foram inspirados no curta Anima, de Paul Thomas Anderson, como resultado de um desafio feito pelo Pedro Cunha.

Obituário

Ilustração: Cassiano Rodka

Ela vem 
Ela sempre vem 
A caveira e a foice 

Deixa ela vir 
Mas vir com calma 
Não apressa esse coice 

Mas não 
Ele foi lá e cuspiu 
Abriu a porta e a trouxe 

Não um, mais mil 
A caveira e… foi-se 

Pra você 
que semeou a morte 
– nossa alma incendeia 
que abusou da sorte 
– chave de cadeia 
que abriu o nosso corte 
– e fez cara feia 

Fica aqui a minha lembrança:
Também morre quem semeia.


O texto e a ilustração acima foram inspirados na música “Nós Vai Tudo Morrer” do Lemoskine. Durante maio de 2021, a equipe do PáginaDois produziu textos, fotos e ilustrações inspirados em canções selecionadas por Cassiano Rodka. Confira as faixas escolhidas na playlist “P2 #4 | Desafio Musical” no Spotify.

O mundo de Davi

Foto: Isabel Dall’Agnol

Davi não entendia bem o que estava acontecendo, mas também não era bobo.

O mundo havia parado. Ele sabia disso. Os seus pais quase não saíam mais de casa. Quando ousavam colocar o pé na rua, disfarçavam-se. Como se as pessoas não fossem reconhecer a sua mãe ou o seu pai atrás daquelas máscaras. Os adultos têm cada uma…

A TV, tantas vezes proibida no passado, agora era a sua maior companhia. Seus pais chegavam a insistir para ele ir para a frente do aparelho. Mas ela tinha se tornado chata. Resolveu fazer com o aparato o mesmo que haviam feito com o mundo: colocou no “pause”.

Na varanda, com os olhinhos curiosos da infância, ele capturou a presença de blocos de montar. Contemplando cada pecinha, decidiu reinventar o mundo. O telhado serviria agora de base, as janelas seriam colocadas de ponta-cabeça, as pontes virariam pistas de skate. Tudo ganhava uma nova função.

Foi tomado de súbito por uma imensa alegria. Abriu um daqueles sorrisos gostosos em que a graça a gente nem sabe onde está. “Eureca”, ele teria gritado se soubesse o que isso significa. Mas epifania é coisa de adulto, então Davi só seguiu brincando.

O mundo continuou o mesmo. Mas o seu. Não o de Davi.


Texto inspirado em uma foto de Isabel Dall’Agnol como parte do desafio de novembro de 2020 do PáginaDois.

Não escute o que eles dizem

ilustração: Cassiano Rodka

“Faça menos, doe-se menos”
Não! Faça mais, muito mais.
Deixa eles implorarem pelo cinza
E cubra-se inteiro de vermelho.

“Coma menos, beba menos”
Nah! Coma um cacho, beba um tacho.
Lambuze-se de entusiasmo
E deixa respingar no cara ao lado.

“Opine menos, envolva-se menos”
Ah, tá! Meu amigo, senta lá!
Minha língua serpenteia minhas escolhas
Perfurando a cera quadrada do teu ouvido.

“Exponha-se menos, ame menos”
Pff! Veja a nuvem carregada chegando…
Enquanto eles abrem o guarda-chuvas,
Escancara inteiro o teu coração.

Soneto do amor materno

SONETO DO AMOR MATERNO (Isabel em flor edit)

ilustração: Cassiano Rodka

À Beatriz, minha mãe

Desperta ao som da minha manha
Disfarçando o peso do seu empenho
Desfaz o deserto por onde eu venho
Desenhando passos por entre as montanhas

Abençoa minha vida enquanto me banha
Asseando meus pés para um futuro ferrenho
Alimenta minha fome por leitura e desenho
Abrindo caminho para as minhas façanhas

Faz do carinho uma ação
Fabrica o suporte onde me encosto
Forja um ser em será

Traduz criança em criação
Traz forma a cada gesto que gosto
Transforma a manha em amanhã

Seja o outono

Seja o outono.png

ilustração: Cassiano Rodka

Como folhas secas, vocês serão esmagados. Um a um, lentamente, por pés cansados e cheios de chinfra. Cansa. A caminhada cansa. O sapato desgasta, mas não a esperança. Senhora teimosa ela, cotovelos sempre na janela. Ela aguarda para ver a banda passar. Alguma banda há de passar. Vai cair. Ele vai cair. Como folha seca. O som do sapato sobre a folha seca. Que som, meus amigos, que som! 

Que ventania foi essa? Parecia que ia levar tudo. Levou foi nada! O vento parou de soprar. Piano, pianinho. Deu lugar a uma chuva mansa que, em São Paulo, passa em 15 minutos e olha ali o sol. O sol trouxe você. Ou você era o próprio sol. O verão se instalou no meu relógio, iluminou cada segundo. E olha nós descendo a rua na grande parada. A banda tocando e a gente pisando nas folhas secas. O som das folhas se esfarelando, que música! Deixem os sapatos cantarem, meus amigos! 

Mas não esqueçam que as estações mudam. Na dança da mudança, não emudeçam. Sigam cantando. O tempo passa, como a banda. O calor dá lugar ao frio, as folhas voltam a crescer e o copo, mais uma vez, vazio. A parada não para. O coro aumenta. A bandeira agita. O outono retorna. Faz a folha cair novamente. Seja o outono. De novo e de novo. 

Deixa o Ano Novo ser um novo ano. Deixa mover, deixa seguir, deixa mudar. Deixa o sapato cantar. 

Meu Carnaval é você

Meu Carnaval é você.png

ilustração: Cassiano Rodka

Meu Carnaval é você.
Sua presença chega forte na avenida e preenche cada ala como o som do repique. Seu sorriso é meu carro-chefe, me põe em cheque, me faz cantar. Eu sambo por você enquanto seu olho me contorna. Eu sou sua musa, um chute na trave, e ela já sabe. Deixo você sem graça, sou o sabor da sua cachaça. Você me bebe e eu entorno você, como já é de costume. Seu bafo de cana é meu perfume. Debaixo da máscara, eu vejo você e mais nada. No seu coração, sou eu a batucada.

É também você a minha Quarta-feira de Cinzas.
Os restos de purpurina no cabelo e o gosto amargo da catuaba às 10 da matina. Meu pijama suado e as serpentinas na sola do pé… Já sabe quem é? Foi bom e foi você. Mas agora você já era. Na hora do banho, lá vai você escorrendo pelas minhas pernas, descendo rápido pelo meio dos dedos, derramando-se em memórias, fazendo a maquiagem virar careta, se esvaindo no ralo como um pierrô na sarjeta.

Instruções para um coração confuso

Instruções para um coração confuso

ilustração: Cassiano Rodka

Rasga esse medo e deixa o coração bater.

Escuta a melodia do teu desejo e dança. Sente o bumbo do teu peito e cai no ritmo desse pulso. Impulsivo ou verdadeiro? Verde até ficar maduro. Me dá o controle, perde o teu por completo. Encaixa tua vontade na minha, vamos do quarto à cozinha. Te despe da incerteza, baixa essa calça, derruba as coisas da mesa.

Não perca tempo, perca-se nele.

Eu tô aqui e tu também. Só vem. Olha no olho, sente essa chama. Sem culpa, sem tralha, derruba essa muralha. Uma parede de desculpas não te mantém seguro, mas preso. Te liberta desse peso. Mente aberta, coração solto. Uma tarde, um vinho, não aguarde um carinho. Toma as rédeas dessa febre. Arde.

Sente a brisa e voa longe,
assume a forma de gaivota.

A vida passa como o vento, sem tempo pra arrependimento. Não perde a tua passagem. Embarca no trem e curte essa viagem. Vem comigo, chega junto. Se nosso destino é o mesmo, senta aí do meu lado e vamos. Dá a mão, pende a cabeça no meu ombro, sente o balançar do vagão. Deixa ser como será. Ou não saberás como seria.

Se a morte há de chegar um dia,
devolve à tua vida a poesia.