Na padaria

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por Cassiano Rodka

Na padaria, o cheiro do pão novinho faz o mundo parar de girar por uns instantes. No vidro do balcão, o reflexo de um sorriso encontra a bomba de ganache. O ruído da máquina moendo o café é música para quem quer que passe. Na gritaria entre os atendentes, uma chuva de deleites. Se não tem mais mesa vazia, no balcão há sempre espaço.

Na padaria, o amargo da vida se perde por entre os doces. O avô conversa com os netos inquietos, cuca cheia de açúcar. A moça flerta com o telefone, luz azul brilhando em seu rosto. A atendente não anota os pedidos, os carrega na mente. Os colegas de trabalho reclamam – é claro – do chefe. O escritor, como bem lhe cabe, observa.

Na padaria, o relógio deixa de funcionar por uns minutos. Ali, o tempo não se perde, se encontra. Mesmo que não dure (como nada dura), cada segundo é confeito. E amassa o papel do doce, sorve o último gole da taça e a moça recolhe o prato.

Crossroads

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por Cassiano Rodka

Ao Chuck, trôpego e constante

Diante da encruzilhada de um novo modo de pensar, o mundo se revela imenso. Grande como um cachalote, crescente como uma avalanche. Os pés se fincam na terra e os olhos se enchem de horizontes. Como a chegada de uma onda na praia ou um novo livro na estante.

O descolar da bunda do sofá e o lançar-se porta afora são magnólias postas ao vento enquanto a chuva, inconsequente, chora. O simples andar na rua torna-se revolucionário e consistente. Como o bater dos dedos nas teclas de um laptop, como um cálice borbulhante.

Me ponho desnudo no asfalto com a fluidez de água corrente. Conecto-me com o adiante seduzindo a serpente. Maçã não é pecado e o paraíso está posto na gente. Não é um ato de vandalismo, é o saborear a semente.

Quando o vento bate, eu o sinto nas costas. Não tanto um empurrão, um convite. Nem pra esquerda, nem pra direita, pra frente. Sem soprar escolhas ao pé do ouvido, apenas dirigindo a caminhada a um horizonte distante. Um desafio colocado na testa e eu me encontro caminhante.

Com o sabor inebriante das incertezas, sinto o passo firme em um instante. Como um sapato novo, onde o conforto (ainda) não está presente. Deixo os dedos reclamarem e as solas tornarem-se um tanque. Em cada tropeço, estou eu, uma pegada adiante.

O início de algo

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por Cassiano Rodka

Lá de longe, você olha para frente.

É uma senhora distância. Não dá para entender bem ainda se é uma subida íngreme ou uma vertiginosa descida. Nesse momento, só uma coisa é certa: você não estará mais aqui.

O pé direito firma o chão, o pé esquerdo dá uma hesitada. Entre passo e contrapasso, uma linha costura uma nova caminhada. Pronto! Você já está em movimento. Desamarrou a corda do que havia antes, saiu navegante em busca do depois. Curiosidade como um vento, confiança no quadrante. Bússola mais perdida que avó em fliperama. Mas a embarcação segue o seu rumo.

Não demora a fecharem-se umas nuvens e choverem imprevistos. Nunca tardam. E dê-lhe balde e remendo e guarda-chuvas. Mas há orgulho no suor e beleza no improviso. E olha ali você e você e você e você se multiplicando em quatro e segurando as pontas. Estica esse troço que vai!

Não esqueça de delegar bem as tarefas. Relaxar e curtir a jornada é vital. Deixa o fotógrafo fotografar, o escritor escrever e o folgado folgar. Aprenda a sentir o desequilíbrio como uma dança. A maresia, como uma criança. Teimosa, mas ela cansa. Quer vomitar, vomite. Chorar? Chore. Mas não deixe que nada suje a luneta.

Seria um raio de sol surgindo no horizonte? Não olhe muito que cega! Vai deixando ele chegar e observe o que ele está iluminando. Quanta coisa nova ao redor que você nem esperava alcançar. Vai se ajeitando no seu novo habitat, mas também não se acostume muito que a inércia cria mofo. Pare um pouquinho, respire esse ar fresco e curta a vista.

Lá do alto, você olha para baixo.

O silêncio

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por Cassiano Rodka

Eu tenho um respeito enorme pelo silêncio. Só o interrompo quando é realmente necessário. Corto finamente seu tecido com algumas poucas palavras, depois deixo ele preencher novamente o espaço ao redor.

Quando tatuo a sua pele, é para que ele ganhe uma voz. A única coisa pior do que uma tatuagem que perde a cor é aquela que perde o seu significado. Se seu grito tem significância, quebre o silêncio. Se seu berro tem importância, estraçalhe o silêncio. Não se preocupe, ele sempre se recupera. E o silêncio que ressurge após um rugido cheio de intenção é sempre mais macio e reconfortante.

No aparente vazio do silêncio, acontecem um bocado de conexões. A mente brinca de ligar os pontos com os pensamentos, costura ideias e esculpe conceitos. Escute o silêncio. Ele fala baixinho, mas diz muito.

Eu falo pouco, mas não menos do que eu gostaria. Só não consigo jogar palavras ao vento como se apedrejasse o silêncio. Sirenes, despertadores, vocês me cansam. Bêbados ao meio-dia, pessoas que falam pelos cotovelos, vocês não sabem o que estão fazendo. Silêncio, um beijão para você.

A gente tem uma parceria, eu e o silêncio. Às vezes ele toma conta do ambiente, outras vezes, sou eu. Ele é um bom amigo e sempre me deixa passar na frente quando eu tenho uma boa risada, uma nova canção ou uma opinião que possa mudar o mundo.

Eu não grito sem motivo, nem silencio o meu intento.

Dou voz ao silêncio. E escuto quem eu sou.

Dicas para chegar na parada certa

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por Cassiano Rodka

Não pare. Não agora. Não nunca. Restam sabe-se lá quantas paradas, mas o trem segue. Não desça no local errado. Acostume-se com o balanço da vagão. Não siga a maioria, cada um tem a sua estação.

Voe alto sem medo do calor do sol. Suas asas aguentam mais do que você imagina. Mantenha o coração adiante, a cabeça como um segurança. Quando cair, levante.

Chore. Não se impeça de vivenciar nada do que você está passando. Deixe o sentimento abraçar você e lhe despir do seu próprio peso.

Faltam sete paradas.

Não fuja do que você não entende. Olhe. Aprenda. Ouça. Experimente. Não engula tudo o que lhe alimentam. Cuspa o que não lhe apetece. Encontre os seus gostos. Saboreie.

Abra a janela. Alimente seus olhos com o que há lá fora. Inspire-se. Aprecie o que os outros produziram. Divida com eles o que você criou. Ninguém sabe fazer do seu jeito. Alguém precisa do que você inventa. Inspire.

Mais duas paradas.

Não arraste o cadáver do passado no meio da sala. Não alimente zumbis. Mantenha o seu cérebro seu.

Acostume-se com os predadores. Jamais se conforme em ser uma presa. Na água, nade dos tubarões. No ar, voe dos falcões. Na terra, fique longe dos filhos da puta. O mundo está cheio deles. Identifique-os. Afaste-se. Apenas deixe que eles lembrem você do valor dos que lhe amam. Costure-se neles.

Chegamos.

Você está na parada certa. Desça. Olhe ao redor e reconheça o valor de estar ali naquele momento. Respire aquele ar. Saboreie aquele silêncio. E ponha-se a caminhar.

Fora da estação, o sol já está se pondo.

O gato

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por Cassiano Rodka

Eu acordo sempre às 8h. Me espreguiço para trás e para frente numa espécie de yoga de gato. Acordo meu dono porque gosto de companhia. Recebo o primeiro carinho do dia (terão muitos mais adiante) e sigo com ele até a cozinha para comer a minha ração e tomar água. Brinco de pegar até cansar e aí volto a dormir. Durmo bastante, mas vario os locais, sempre focado em conforto e boa temperatura. Acordo e observo o mundo pelas janelas da casa. Como. Brinco. Durmo.

Não, não é uma vida extraordinária. É a minha vida. É o que eu faço todos os dias e me mantém feliz. Não é o que você procura para você. É o que eu encontro para mim. E reencontro todos os dias. Minha felicidade é um quebra-cabeças que eu remonto diariamente. Um pedaço aqui, outro ali, outro acolá. Ela está sempre presente, só é preciso achar as peças e usar cada uma delas. Não é pouco, é muito. A vida é simples, quem complica é você. Vai, experimenta! Você sabe onde estão as pecinhas. Vai lá, não é bobagem, monta o seu! E dá uma olhada na imagem que vai formar…

É lindo demais, não?

Como escrever: Um guia para iniciantes

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por Cassiano Rodka

Esses dias me perguntaram como eu faço para escrever. Me pus a pensar sobre o meu processo e percebi que, de fato, eu tenho um modus operandi. Eu sento e escrevo.

Estando cheio de ideias ou sem inspiração alguma, eu sempre faço o mesmo. Com uma caneta na mão ou os dedinhos no laptop, a metodologia não se altera. Eu sento e escrevo.

Cheguei a uma óbvia conclusão: o importante mesmo é o sentar. De pé, eu não escreveria. Sentado é perfeito. Deitado ainda vá, mas é meio complicado – vira para cá, vira para lá. Melhor sentar. E escrever.

A partir daí, comecei a focar minha atenção no que realmente interessa. Passei a investir em cadeiras. Tenho atualmente 17 cadeiras diferentes no meu apartamento. Cada dia escolho uma delas e levo para o escritório, onde eu sento e escrevo.

Isso sem falar nos móveis sentáveis que não foram realmente construídos para isso. Tem um balcão na minha sala que é ideal para aplicar essa técnica. Não é preciso arrastá-lo para o escritório, o local não faz diferença alguma. O negócio é sentar e escrever.

O método sempre me pareceu infalível. Mas, hoje, algo estranho aconteceu. Sentei na minha mais recente aquisição e… Nada. Esperei alguns minutos, tentei forçar as ideias a saírem… Nadica de nada. Sentei e não escrevi.

Não tive a menor dúvida, levantei e saí porta afora com a cadeira na mão. Na loja, botei a boca na vendedora. “Onde já se viu vender uma cadeira com defeito para um escritor?” Ela me olhou assustada, tentou se fazer de louca, disse que não entendia patavinas do que eu estava falando, mas para cima de mim, não. Só um pouquinho, né? “Senta aí e tenta escrever alguma coisa!” Ela nem sentou, nem escreveu.

Ânimos acalmados, fui convidado a me retirar do local por dois seguranças nada simpáticos. O gerente, com cara de abostado, nem se coçou e ainda ficou parado me olhando como se o louco fosse eu. Não trocaram o produto defeituoso, nem devolveram o meu dinheiro. Nunca mais volto lá! E vou reclamar no Facebook! Frustrado, sentei na beirada da calçada e – adivinha! – escrevi.

O quartinho

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por Cassiano Rodka

A inspiração é, para mim, um quartinho. Quando entro nele, o mundo lá fora desaparece. E eu fico fechado no cubículo, flutuando no espaço, deixando as palavras fluírem. Posso passar meses no quartinho esculpindo histórias. Tempo não é problema, palavra errada é. Gosto da história, mas gosto mais ainda da roupa que ela usa. Um conto decotado é irresistível. Não é começo-meio-fim, é um redemoinho que te põe dentro da história de tal maneira que parar de ler significa ser catapultado a uma realidade a qual o leitor não mais pertence. A maneira que as palavras se ordenam para contar uma história faz toda a diferença. Eu sou aquela professorinha que organiza a fila, mas minha ordem independe de tamanho, tem a ver com fluência. Se for instigante que Joãozinho seja o primeiro e Fernandão o próximo de cabeça para baixo, assim será feita a fila. Sinto que é meu dever criar o redemoinho. Evitar a fila em ordem de tamanho, experimentar diferentes roupas em diferentes histórias. Deixar que sejam inspiradoras, ridículas, adoradas ou execradas. Desde que sejam redemoinhos. Que te suguem, te façam girar, te cuspam e te deixem zonzo. No fim do texto, tu talvez não saibas qual foi a história. Mas ela permanece contigo.

A política dos ois

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por Cassiano Rodka

Dentre as diversas regras não escritas da sociedade, uma das mais difíceis de compreender é a política dos ois. Basta sair de casa para perceber que ninguém sabe bem quem, quando ou como cumprimentar. É um sorriso amarelo aqui, uma olhada para o lado acolá, um aceno hesitante do outro lado da rua e várias implicâncias brotando das mais vexaminosas tentativas de esquiva do campo de visão alheio.

Se você não gosta de regras, mas quer sair de casa, existem duas opções: a primeira é andar sempre de óculos escuros, aí dá para escolher quem você enxerga. “Passei por você ontem? Nem vi!” A segunda alternativa é dar oi para todo mundo que vê pela frente. Aí não tem erro. Você pode passar por louco, mas, mal educado, jamais.

Agora, se você quer entrar no jogo de verdade, o negócio é bem mais complicado. Cada um acaba tendo as suas próprias regras, é verdade, mas algumas atitudes são básicas e, se você não respeitá-las… Bem, cada oi mal calculado pode levar a anos de mal entendidos. Depois não diga que não avisei.

Em visita à família ou na casa dos amigos, a regra é simples: cumprimente todos, mesmo os que você não gosta. Eles estão lá e estarão até o final da vida (sua ou deles, um de vocês vai primeiro), então acostume-se. A intensidade do oi pode variar, mas sem dar muito na cara, senão fica chato. A partir do momento que você acabou de dar oi a todos os presentes, terminou a sua obrigação. Agora você só responde a quem chegar e vier cumprimentar você. Fácil assim!

O desafio mesmo são os locais públicos, onde há uma diversidade de relações pessoais. Cada lugar oferece um quebra-cabeças diferente e aí entra o seu bom senso e a sua malemolência social. Há aqueles que necessitam de um oi com paradinha para conversar, os que quase fogem logo depois de um oi balbuciado e até uns que chegam a passar trabalho evitando contato visual durante horas a fio, tudo para não dizer oi. Tem uns também que às vezes cumprimentam, às vezes viram a cara, assim sem razão concreta – são os mais chatos, pois a gente nunca está preparado para o que vai acontecer.

No caso da ausência de oi, algumas regras são elementares: se você conhece a pessoa e, ao passar por ela, a criatura não proferir um oizinho que seja, você automaticamente ganha o direito de não cumprimentá-la na próxima vez em que se encontrarem. Se você perceber que a pessoa lhe reconheceu e se fez de louca, o direito torna-se vitalício. Você pode nunca mais cumprimentá-la na vida, sem peso algum na consciência. Não há nada pior do que aquele oi pro vazio quando o cumprimentado vira a cara bem na hora, sabe? Aí já era, o sujeito que batalhe para recuperar o seu privilégio de ser saudado novamente. E ele que se cuide, pois futuramente existirão leis específicas para isso. E lá vai o indivíduo para o banco dos réus, suspeito de sonegação de ois.

“Veredito, Vossa Excelência?”

“Culpado! Condenado a cinco anos de trabalho na recepção da Disney World!”

A coisa

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por Cassiano Rodka

Quando pequeno, minha professora costumava elogiar minhas redações. Coisa boa era aquela sensação de trabalho bem feito, antes mesmo de enxergar aquilo como um trabalho. Mas uma certa vez, ela percebeu uma coisa errada no meu texto. Eu usava demais a palavra “coisa”. Mas como assim? Achei aquilo uma coisa muito estranha. O que ela tinha contra aquela palavra? Eu usava bastante “mas” também, mas ela não disse nada sobre isso. Mas enfim, o problema era mesmo com a coisa. Segundo ela, coisa não era nada. Era uma palavra feia, portanto era mais prudente trocar por “algo”. Mas prudente não é eficiente e nem toda coisa é algo. Algumas coisas são coisa nenhuma.

Mas por um capricho da professora e uma preocupação com a nota por parte do aluno, as coisas viraram algo. Meus textos passaram a ter sempre algo acontecendo que eventualmente terminava em algo interessante. A professora adorava, mas, para mim… tinha algo errado. E não foi muito difícil descobrir o que era. Faltava alguma coisa. Uma, que fosse! Era necessário fazer algo para mudar aquela situação. Então eu fiz a coisa mais eficiente: cresci.

Crescer é uma coisa boa porque a gente aprende a tomar controle da coisa toda. E eu descobri uma coisa importantíssima: coisa não é nada coisa nenhuma! Coisa é tudo! Palavra feia também é gente! Precisa ser usada, precisa expressar seu significado. Que coisa! A professora também era feia e nem por isso foi substituída. E eu digo e repito: repetição não é sempre desnecessária. Repetição é recurso de linguagem. Repetição não é sempre desnecessária. Essa foi.

Então, hoje em dia, quando quero que algo aconteça, eu faço alguma coisa. Eu uso as palavras indiscriminadamente: feias, bonitas, longas, abreviadas, repetidas, difíceis, corriqueiras, repetidas, inventadas até. Há algo de libertador e herlíneo em deixar as palavras se aninharem no texto de uma maneira que, até a mim que as digita, elas surpreendem. Eu poderia ser como minha professora e organizar todas em fila, por ordem de tamanho, por sexo, notas ou comportamento. Eu poderia fazer algo assim. Mas tem coisa melhor?