Meu Carnaval é você

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ilustração: Cassiano Rodka

Meu Carnaval é você.
Sua presença chega forte na avenida e preenche cada ala como o som do repique. Seu sorriso é meu carro-chefe, me põe em cheque, me faz cantar. Eu sambo por você enquanto seu olho me contorna. Eu sou sua musa, um chute na trave, e ela já sabe. Deixo você sem graça, sou o sabor da sua cachaça. Você me bebe e eu entorno você, como já é de costume. Seu bafo de cana é meu perfume. Debaixo da máscara, eu vejo você e mais nada. No seu coração, sou eu a batucada.

É também você a minha Quarta-feira de Cinzas.
Os restos de purpurina no cabelo e o gosto amargo da catuaba às 10 da matina. Meu pijama suado e as serpentinas na sola do pé… Já sabe quem é? Foi bom e foi você. Mas agora você já era. Na hora do banho, lá vai você escorrendo pelas minhas pernas, descendo rápido pelo meio dos dedos, derramando-se em memórias, fazendo a maquiagem virar careta, se esvaindo no ralo como um pierrô na sarjeta.

Instruções para um coração confuso

Instruções para um coração confuso

ilustração: Cassiano Rodka

Rasga esse medo e deixa o coração bater.

Escuta a melodia do teu desejo e dança. Sente o bumbo do teu peito e cai no ritmo desse pulso. Impulsivo ou verdadeiro? Verde até ficar maduro. Me dá o controle, perde o teu por completo. Encaixa tua vontade na minha, vamos do quarto à cozinha. Te despe da incerteza, baixa essa calça, derruba as coisas da mesa.

Não perca tempo, perca-se nele.

Eu tô aqui e tu também. Só vem. Olha no olho, sente essa chama. Sem culpa, sem tralha, derruba essa muralha. Uma parede de desculpas não te mantém seguro, mas preso. Te liberta desse peso. Mente aberta, coração solto. Uma tarde, um vinho, não aguarde um carinho. Toma as rédeas dessa febre. Arde.

Sente a brisa e voa longe,
assume a forma de gaivota.

A vida passa como o vento, sem tempo pra arrependimento. Não perde a tua passagem. Embarca no trem e curte essa viagem. Vem comigo, chega junto. Se nosso destino é o mesmo, senta aí do meu lado e vamos. Dá a mão, pende a cabeça no meu ombro, sente o balançar do vagão. Deixa ser como será. Ou não saberás como seria.

Se a morte há de chegar um dia,
devolve à tua vida a poesia.

Na padaria

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por Cassiano Rodka

Na padaria, o cheiro do pão novinho faz o mundo parar de girar por uns instantes. No vidro do balcão, o reflexo de um sorriso encontra a bomba de ganache. O ruído da máquina moendo o café é música para quem quer que passe. Na gritaria entre os atendentes, uma chuva de deleites. Se não tem mais mesa vazia, no balcão há sempre espaço.

Na padaria, o amargo da vida se perde por entre os doces. O avô conversa com os netos inquietos, cuca cheia de açúcar. A moça flerta com o telefone, luz azul brilhando em seu rosto. A atendente não anota os pedidos, os carrega na mente. Os colegas de trabalho reclamam – é claro – do chefe. O escritor, como bem lhe cabe, observa.

Na padaria, o relógio deixa de funcionar por uns minutos. Ali, o tempo não se perde, se encontra. Mesmo que não dure (como nada dura), cada segundo é confeito. E amassa o papel do doce, sorve o último gole da taça e a moça recolhe o prato.

Crossroads

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por Cassiano Rodka

Ao Chuck, trôpego e constante

Diante da encruzilhada de um novo modo de pensar, o mundo se revela imenso. Grande como um cachalote, crescente como uma avalanche. Os pés se fincam na terra e os olhos se enchem de horizontes. Como a chegada de uma onda na praia ou um novo livro na estante.

O descolar da bunda do sofá e o lançar-se porta afora são magnólias postas ao vento enquanto a chuva, inconsequente, chora. O simples andar na rua torna-se revolucionário e consistente. Como o bater dos dedos nas teclas de um laptop, como um cálice borbulhante.

Me ponho desnudo no asfalto com a fluidez de água corrente. Conecto-me com o adiante seduzindo a serpente. Maçã não é pecado e o paraíso está posto na gente. Não é um ato de vandalismo, é o saborear a semente.

Quando o vento bate, eu o sinto nas costas. Não tanto um empurrão, um convite. Nem pra esquerda, nem pra direita, pra frente. Sem soprar escolhas ao pé do ouvido, apenas dirigindo a caminhada a um horizonte distante. Um desafio colocado na testa e eu me encontro caminhante.

Com o sabor inebriante das incertezas, sinto o passo firme em um instante. Como um sapato novo, onde o conforto (ainda) não está presente. Deixo os dedos reclamarem e as solas tornarem-se um tanque. Em cada tropeço, estou eu, uma pegada adiante.

O início de algo

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por Cassiano Rodka

Lá de longe, você olha para frente.

É uma senhora distância. Não dá para entender bem ainda se é uma subida íngreme ou uma vertiginosa descida. Nesse momento, só uma coisa é certa: você não estará mais aqui.

O pé direito firma o chão, o pé esquerdo dá uma hesitada. Entre passo e contrapasso, uma linha costura uma nova caminhada. Pronto! Você já está em movimento. Desamarrou a corda do que havia antes, saiu navegante em busca do depois. Curiosidade como um vento, confiança no quadrante. Bússola mais perdida que avó em fliperama. Mas a embarcação segue o seu rumo.

Não demora a fecharem-se umas nuvens e choverem imprevistos. Nunca tardam. E dê-lhe balde e remendo e guarda-chuvas. Mas há orgulho no suor e beleza no improviso. E olha ali você e você e você e você se multiplicando em quatro e segurando as pontas. Estica esse troço que vai!

Não esqueça de delegar bem as tarefas. Relaxar e curtir a jornada é vital. Deixa o fotógrafo fotografar, o escritor escrever e o folgado folgar. Aprenda a sentir o desequilíbrio como uma dança. A maresia, como uma criança. Teimosa, mas ela cansa. Quer vomitar, vomite. Chorar? Chore. Mas não deixe que nada suje a luneta.

Seria um raio de sol surgindo no horizonte? Não olhe muito que cega! Vai deixando ele chegar e observe o que ele está iluminando. Quanta coisa nova ao redor que você nem esperava alcançar. Vai se ajeitando no seu novo habitat, mas também não se acostume muito que a inércia cria mofo. Pare um pouquinho, respire esse ar fresco e curta a vista.

Lá do alto, você olha para baixo.

O silêncio

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por Cassiano Rodka

Eu tenho um respeito enorme pelo silêncio. Só o interrompo quando é realmente necessário. Corto finamente seu tecido com algumas poucas palavras, depois deixo ele preencher novamente o espaço ao redor.

Quando tatuo a sua pele, é para que ele ganhe uma voz. A única coisa pior do que uma tatuagem que perde a cor é aquela que perde o seu significado. Se seu grito tem significância, quebre o silêncio. Se seu berro tem importância, estraçalhe o silêncio. Não se preocupe, ele sempre se recupera. E o silêncio que ressurge após um rugido cheio de intenção é sempre mais macio e reconfortante.

No aparente vazio do silêncio, acontecem um bocado de conexões. A mente brinca de ligar os pontos com os pensamentos, costura ideias e esculpe conceitos. Escute o silêncio. Ele fala baixinho, mas diz muito.

Eu falo pouco, mas não menos do que eu gostaria. Só não consigo jogar palavras ao vento como se apedrejasse o silêncio. Sirenes, despertadores, vocês me cansam. Bêbados ao meio-dia, pessoas que falam pelos cotovelos, vocês não sabem o que estão fazendo. Silêncio, um beijão para você.

A gente tem uma parceria, eu e o silêncio. Às vezes ele toma conta do ambiente, outras vezes, sou eu. Ele é um bom amigo e sempre me deixa passar na frente quando eu tenho uma boa risada, uma nova canção ou uma opinião que possa mudar o mundo.

Eu não grito sem motivo, nem silencio o meu intento.

Dou voz ao silêncio. E escuto quem eu sou.

Dicas para chegar na parada certa

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por Cassiano Rodka

Não pare. Não agora. Não nunca. Restam sabe-se lá quantas paradas, mas o trem segue. Não desça no local errado. Acostume-se com o balanço da vagão. Não siga a maioria, cada um tem a sua estação.

Voe alto sem medo do calor do sol. Suas asas aguentam mais do que você imagina. Mantenha o coração adiante, a cabeça como um segurança. Quando cair, levante.

Chore. Não se impeça de vivenciar nada do que você está passando. Deixe o sentimento abraçar você e lhe despir do seu próprio peso.

Faltam sete paradas.

Não fuja do que você não entende. Olhe. Aprenda. Ouça. Experimente. Não engula tudo o que lhe alimentam. Cuspa o que não lhe apetece. Encontre os seus gostos. Saboreie.

Abra a janela. Alimente seus olhos com o que há lá fora. Inspire-se. Aprecie o que os outros produziram. Divida com eles o que você criou. Ninguém sabe fazer do seu jeito. Alguém precisa do que você inventa. Inspire.

Mais duas paradas.

Não arraste o cadáver do passado no meio da sala. Não alimente zumbis. Mantenha o seu cérebro seu.

Acostume-se com os predadores. Jamais se conforme em ser uma presa. Na água, nade dos tubarões. No ar, voe dos falcões. Na terra, fique longe dos filhos da puta. O mundo está cheio deles. Identifique-os. Afaste-se. Apenas deixe que eles lembrem você do valor dos que lhe amam. Costure-se neles.

Chegamos.

Você está na parada certa. Desça. Olhe ao redor e reconheça o valor de estar ali naquele momento. Respire aquele ar. Saboreie aquele silêncio. E ponha-se a caminhar.

Fora da estação, o sol já está se pondo.

O gato

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por Cassiano Rodka

Eu acordo sempre às 8h. Me espreguiço para trás e para frente numa espécie de yoga de gato. Acordo meu dono porque gosto de companhia. Recebo o primeiro carinho do dia (terão muitos mais adiante) e sigo com ele até a cozinha para comer a minha ração e tomar água. Brinco de pegar até cansar e aí volto a dormir. Durmo bastante, mas vario os locais, sempre focado em conforto e boa temperatura. Acordo e observo o mundo pelas janelas da casa. Como. Brinco. Durmo.

Não, não é uma vida extraordinária. É a minha vida. É o que eu faço todos os dias e me mantém feliz. Não é o que você procura para você. É o que eu encontro para mim. E reencontro todos os dias. Minha felicidade é um quebra-cabeças que eu remonto diariamente. Um pedaço aqui, outro ali, outro acolá. Ela está sempre presente, só é preciso achar as peças e usar cada uma delas. Não é pouco, é muito. A vida é simples, quem complica é você. Vai, experimenta! Você sabe onde estão as pecinhas. Vai lá, não é bobagem, monta o seu! E dá uma olhada na imagem que vai formar…

É lindo demais, não?

Como escrever: Um guia para iniciantes

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por Cassiano Rodka

Esses dias me perguntaram como eu faço para escrever. Me pus a pensar sobre o meu processo e percebi que, de fato, eu tenho um modus operandi. Eu sento e escrevo.

Estando cheio de ideias ou sem inspiração alguma, eu sempre faço o mesmo. Com uma caneta na mão ou os dedinhos no laptop, a metodologia não se altera. Eu sento e escrevo.

Cheguei a uma óbvia conclusão: o importante mesmo é o sentar. De pé, eu não escreveria. Sentado é perfeito. Deitado ainda vá, mas é meio complicado – vira para cá, vira para lá. Melhor sentar. E escrever.

A partir daí, comecei a focar minha atenção no que realmente interessa. Passei a investir em cadeiras. Tenho atualmente 17 cadeiras diferentes no meu apartamento. Cada dia escolho uma delas e levo para o escritório, onde eu sento e escrevo.

Isso sem falar nos móveis sentáveis que não foram realmente construídos para isso. Tem um balcão na minha sala que é ideal para aplicar essa técnica. Não é preciso arrastá-lo para o escritório, o local não faz diferença alguma. O negócio é sentar e escrever.

O método sempre me pareceu infalível. Mas, hoje, algo estranho aconteceu. Sentei na minha mais recente aquisição e… Nada. Esperei alguns minutos, tentei forçar as ideias a saírem… Nadica de nada. Sentei e não escrevi.

Não tive a menor dúvida, levantei e saí porta afora com a cadeira na mão. Na loja, botei a boca na vendedora. “Onde já se viu vender uma cadeira com defeito para um escritor?” Ela me olhou assustada, tentou se fazer de louca, disse que não entendia patavinas do que eu estava falando, mas para cima de mim, não. Só um pouquinho, né? “Senta aí e tenta escrever alguma coisa!” Ela nem sentou, nem escreveu.

Ânimos acalmados, fui convidado a me retirar do local por dois seguranças nada simpáticos. O gerente, com cara de abostado, nem se coçou e ainda ficou parado me olhando como se o louco fosse eu. Não trocaram o produto defeituoso, nem devolveram o meu dinheiro. Nunca mais volto lá! E vou reclamar no Facebook! Frustrado, sentei na beirada da calçada e – adivinha! – escrevi.

O quartinho

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por Cassiano Rodka

A inspiração é, para mim, um quartinho. Quando entro nele, o mundo lá fora desaparece. E eu fico fechado no cubículo, flutuando no espaço, deixando as palavras fluírem. Posso passar meses no quartinho esculpindo histórias. Tempo não é problema, palavra errada é. Gosto da história, mas gosto mais ainda da roupa que ela usa. Um conto decotado é irresistível. Não é começo-meio-fim, é um redemoinho que te põe dentro da história de tal maneira que parar de ler significa ser catapultado a uma realidade a qual o leitor não mais pertence. A maneira que as palavras se ordenam para contar uma história faz toda a diferença. Eu sou aquela professorinha que organiza a fila, mas minha ordem independe de tamanho, tem a ver com fluência. Se for instigante que Joãozinho seja o primeiro e Fernandão o próximo de cabeça para baixo, assim será feita a fila. Sinto que é meu dever criar o redemoinho. Evitar a fila em ordem de tamanho, experimentar diferentes roupas em diferentes histórias. Deixar que sejam inspiradoras, ridículas, adoradas ou execradas. Desde que sejam redemoinhos. Que te suguem, te façam girar, te cuspam e te deixem zonzo. No fim do texto, tu talvez não saibas qual foi a história. Mas ela permanece contigo.