Não escute o que eles dizem

ilustração: Cassiano Rodka

“Faça menos, doe-se menos”
Não! Faça mais, muito mais.
Deixa eles implorarem pelo cinza
E cubra-se inteiro de vermelho.

“Coma menos, beba menos”
Nah! Coma um cacho, beba um tacho.
Lambuze-se de entusiasmo
E deixa respingar no cara ao lado.

“Opine menos, envolva-se menos”
Ah, tá! Meu amigo, senta lá!
Minha língua serpenteia minhas escolhas
Perfurando a cera quadrada do teu ouvido.

“Exponha-se menos, ame menos”
Pff! Veja a nuvem carregada chegando…
Enquanto eles abrem o guarda-chuvas,
Escancara inteiro o teu coração.

Soneto do amor materno

SONETO DO AMOR MATERNO (Isabel em flor edit)

ilustração: Cassiano Rodka

À Beatriz, minha mãe

Desperta ao som da minha manha
Disfarçando o peso do seu empenho
Desfaz o deserto por onde eu venho
Desenhando passos por entre as montanhas

Abençoa minha vida enquanto me banha
Asseando meus pés para um futuro ferrenho
Alimenta minha fome por leitura e desenho
Abrindo caminho para as minhas façanhas

Faz do carinho uma ação
Fabrica o suporte onde me encosto
Forja um ser em será

Traduz criança em criação
Traz forma a cada gesto que gosto
Transforma a manha em amanhã

Instruções para um coração confuso

Instruções para um coração confuso

ilustração: Cassiano Rodka

Rasga esse medo e deixa o coração bater.

Escuta a melodia do teu desejo e dança. Sente o bumbo do teu peito e cai no ritmo desse pulso. Impulsivo ou verdadeiro? Verde até ficar maduro. Me dá o controle, perde o teu por completo. Encaixa tua vontade na minha, vamos do quarto à cozinha. Te despe da incerteza, baixa essa calça, derruba as coisas da mesa.

Não perca tempo, perca-se nele.

Eu tô aqui e tu também. Só vem. Olha no olho, sente essa chama. Sem culpa, sem tralha, derruba essa muralha. Uma parede de desculpas não te mantém seguro, mas preso. Te liberta desse peso. Mente aberta, coração solto. Uma tarde, um vinho, não aguarde um carinho. Toma as rédeas dessa febre. Arde.

Sente a brisa e voa longe,
assume a forma de gaivota.

A vida passa como o vento, sem tempo pra arrependimento. Não perde a tua passagem. Embarca no trem e curte essa viagem. Vem comigo, chega junto. Se nosso destino é o mesmo, senta aí do meu lado e vamos. Dá a mão, pende a cabeça no meu ombro, sente o balançar do vagão. Deixa ser como será. Ou não saberás como seria.

Se a morte há de chegar um dia,
devolve à tua vida a poesia.

Quando a gente diz não

Quando a gente diz não_P2.jpg

ilustração: Cassiano Rodka

Vai lá
Estende a mão
Enlaça teus dedos nos meus
Faz crescer esse cordão
Acredita no tamanho dessa massa
Sente o alargar dessa intenção
Abraça o peso da leveza
Deixa rufar o coração
Não empunha a arma dos outros
Desenlaça essa corda no chão
Tira o nó do meu pescoço
Me entenda como irmão
Pois tem você e eu e eles
E, assim, uma nação
O som do sim seduz o incauto
Mas a coragem ecoa em um não

Aqui onde você está

Aqui onde você está_P2

À tia Ruth

A mão da criança no coque
Dedinhos no cabelo, onde cada fio é um segundo
Desmonta o penteado como quem desafia o tempo

A mão do adolescente no pote de azeitonas
Dedos no vidro, onde um olhar carinhoso se esconde
Degusta cada minuto até o caroço

A mão do adulto é ocupada demais
Deduz o tato, o contato e paga o pato
Desvenda a sombra das horas que passaram num sopro

O tempo se aproxima como a água na beira do mar
Discreto e de mansinho e de repente a nos molhar
Desfaz o castelo, o colo e o carinho

Mas a distância entre nós, ela hoje não há
De certo, é isso que o tempo enfim nos dá
Desagua nossos momentos em um só lugar

A canção de Fausto

A canção de Fausto_P2

De prazer em prazer
Quem é o próximo a entrar?
Fecha a porta e abre a boca
Não esquenta o teu lugar

Larga a máscara na entrada
E qualquer boa intenção
Deixa bater a porta
Mas não me mova o coração

Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?
Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?

De vazio em vazio
Quem te disse pra ficar?
Abre a porta e fecha a boca
Não espera eu ligar

Deixa a alma na saída
E o amargo da omissão
Larga de leve a porta
Mas não me leve o coração

Até quando eu vou seguir?
Perco a aposta pra ganhar
Até quando eu vou seguir?
E por quem eu vou cessar?

Avisa o mundo

Avisa o mundo_P2

Vai lá e avisa o mundo
Que tu tá preparado
Que não há nada que ele te jogue
Que não possa ser mastigado

Fala ali pra ele
Que tudo foi engolido
Sapo, príncipe, princípios
Tudo já foi transformado

Revela que todo mistério
Já foi por ti desvendado
Que não há truque ou mágico
Que possam fugir teu rugido

Diz tudo o que tu pensa
Sobre essa falta de rebolado
Baixa as calças do mundo
Deita e vira pro lado

Conto de fadas – Capítulo III

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Achei que era carruagem, era carroça
Príncipe de nada, rei da troça
Sambando sem molejo, maldizendo a bossa
Achei que era carruagem, era carroça

Achei que era castelo, era palhoça
Um guerreiro tão belo, uma armadura que coça
Bancando o bobo da corte, mergulhando na fossa
Achei que era castelo, era palhoça

Achei que era permitido, talvez não possa
Dar a mão ao inimigo, fazer vista grossa
Então me ponho de castigo, era uma vez essa joça
Achei que fosse consumado, falha nossa!…