Davi e o piano

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por Cassiano Rodka

Cerrou o punho e golpeou o parceiro, massacrando duas teclas brancas e um fá sustenido.

“O que houve aí em cima?”, perguntou a mãe do menino. “Nada!”, murmurou ele. Davi sentia-se frustrado com a sua aparente incapacidade de absorver as aulas de teoria musical. Seus colegas dominavam com perfeição (na verdade, não) a sequência de notas do modo lídio. Para ele, era grego. Queria ter a destreza de um Stevie Wonder ao piano, mas… sem tanta aula, por favor! Quando pediu para que os seus pais o matriculassem em curso de piano, não sonhava que música podia ser algo tão… boring. Foi depois de assistir um show do Jerry Lee Lewis na TV. O garoto ficou fascinado pelas melodias que o músico parecia criar com facilidade. Davi passou a se imaginar em um grande palco, fechando a noite de um Rock in Rio, com uma multidão gritando seu nome… Mas, na prática, sofria para tocar os poucos acordes de “Imagine”. Aí pensava em John Lennon e o via sentado ao piano, esmurrando uns bemóis. “O que houve, John?”, perguntava Yoko, preocupada. “Nada”, murmurava o músico. Ele provavelmente havia estudado bastante para compor aquela canção (na verdade, não). Mas que chato era aprender o lado teórico da música, era como transformar um show em uma aula de matemática. Blerg!…

Como em todas as situações em que se sentia inapto, Davi deixou a concentração cair no sono e sua mente pôs-se a viajar. Distante, ele viu-se como um super-herói a desferir golpes poderosos em um vilão bastante peculiar. O malfeitor em questão possuía uma cara quadrada e dentes pretos e brancos que faziam diferentes ruídos ao serem amassados pelo punho do mocinho. Em uma associação aparentemente livre – daquelas que só esses momentos viajantes proporcionam -, o garoto enxergou-se sentado em sala de aula, fazendo exercícios de matemática, escutando o discurso do professor sobre como a prática leva à perfeição. Logo em seguida, estava na festa da turma onde beijou pela primeira vez uma menina. Depois gastava toda a mesada em fichas de fliperama, avançando cada vez mais nas fases do jogo…

Sem perceber claramente a imagem que sua mente produzia com aquela colcha de lembranças, Davi pegou-se mastigando um pensamento que temia acreditar: não estaria ele eternamente sentado em uma grande sala de aula com lições para resolver todo santo dia? Um tema de casa atrás do outro, com soluções que só ele podia aprender a resolver. Quantos beijos e quantas fichinhas são necessários para chegar ao final? Quantos vilões ele ainda teria que derrotar? Se a cada beijo ele se aperfeiçoar, a solução é beijar! Se a cada jogo ele se aproximar do final, por que não jogar? Se a prática leva à perfeição, o que fazer para a vida melhorar? Mas o quão óbvio podia ser? Viver, ora bolas!

Quando despertou de seu transe, como se uma tal de epifania lhe tivesse gritado aos ouvidos, Davi percorreu, com os olhinhos curiosos da infância, as linhas retas e enigmáticas da partitura e pôs-se a tocar, com muita vontade e muitos erros, determinado e debochado, melodioso e atonal, uma canção que não era exatamente a de John Lennon, mas uma recriação muito particular, tão cheia de vida e tão sua, que, mal sabia ele, era a sua primeira composição.

O humor dos bichos

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por Cassiano Rodka

A gargalhada do garoto foi tão alta que o silêncio até corou. Enquanto o som de sua risada dissipava-se no vento, Davi percebeu algo realmente curioso: seu gato não ria.

O bichinho tinha acabado de escorregar do muro do pátio, mas havia habilmente se agarrado no guidão da bicicleta de seu dono, dado um giro de 360º e pousado elegantemente no chão. Um espetáculo de precisão e humor ovacionado pelas gargalhadas do menino. Mas, diferente de Davi, Haroldo não parecia achar a menor graça. Olhava seriamente o menino, atraído pelo som alto de seu riso. Depois começou a lamber suas patas, dando início a um longo banho felino que só seria interrompido vez ou outra por algum ruído que ele parava atentamente para escutar por alguns segundos. Com os olhinhos curiosos da infância, Davi acompanhava os movimentos do gato, mas o que não saía de seu pensamento era aquela nova descoberta: Haroldo não tinha humor.

Intrigado, o garoto foi procurar nas gavetas de sua memória algum momento – breve que fosse! – em que seu animal de estimação tivesse esboçado algum sorriso. O dia em que o viu pela primeira vez – saltitante que só ele! – no centro de adoção, a noite em que eles passaram quase em claro perseguindo Guido, o ratinho de borracha, as diversas tardes de pega-pega no quintal… Eram momentos em que Davi se recordava de longas risadas. Mas as risadas eram suas, não de Haroldo. O fato chegava a incomodar um pouco o menino. Como Haroldo podia ficar tão sério o tempo todo? Ainda mais em sua companhia! Mas não. Nada. Nem uma risadinha. O que havia de errado com o seu gato? Por que ele não era como os outros animais que sempre se…

“Peraí!”…

E aí seu pensamento foi ainda mais longe. Lembrou de seu peixe Artur, do cachorro do vizinho, da tartaruga Ronalda e até dos animais do zoológico. E ficou pasmo. “Os bichos não tem humor”, concluiu abismado. Mesmo o macaco, por mais brincalhão que ele fosse, não ria. Mas qual seria o desmedido motivo que conseguia deixar o reino animal inteiro tão sério? Havia alguma coisa que os preocupava, Davi estava certo. Eles deviam saber de algo que os humanos não conseguiam perceber. No fundo, eles são mais espertos que a gente…

Davi voltou a encarar o gato, agora parado quase estático com os olhos arregalados e orelhas atentas. Haroldo desviava os olhos do menino com falsa distração. Davi tentava ler o que se passava na cabecinha do bichano. Haroldo voltava a olhar seriamente o garoto. Por que estava tão sério? O que estava pensando? Haroldo estava preocupado. Seria Davi o primeiro humano a descobrir o que estava realmente se passando?…

O ponteiro dos minutos

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por Cassiano Rodka

Bastou escutar as vozes da mãe e da empregada costurando-se na sala para Davi pôr seus pés de vento para correr.

Postando-se levemente atrás do sofá, como que camuflado de um inimigo desconhecido, o pequeno detetive começava sua investigação. A empregada pedia desculpas com sua cabeça baixa enquanto a mãe a perdoava com tapinhas nas costas. Davi já sabia – pelos tapinhas e pelo tom da voz – que ela não estava de fato satisfeita. Olhavam seguidamente para a parede e para a mão da empregada, que segurava um objeto pontiagudo. A visão aos poucos foi se aclarando. Maria Eugênia havia quebrado o ponteiro dos minutos do velho relógio da sala.

Davi ficou aflito. Nunca tinha visto algo assim acontecer e temia o que isso podia significar. Como as horas passariam agora? Como Maria Eugênia podia ter sido tão descuidada? Para as mãos pesadas da empregada até o tempo se via frágil.

Logo que o pequeno tumulto se desfez, os olhinhos curiosos da infância botaram-se a postos na frente do relógio. A imagem era aterradora: um ponteiro apenas, pequerrucho, apontava para o número 12. Estático. Imutável. Que horas seriam agora? Davi aprendera a ler as horas recentemente na escola e já estava ficando bom nisso, mas agora sem o ponteiro dos minutos… Como? Quando comer? Quando dormir? Como não chegar atrasado à escola sem saber quantos minutos lhe restavam? Lembrou da imagem da professora ralhando com ele certa vez, cobrando-lhe a impossível devolução de alguns minutos que ele já tinha gasto na companhia de seu PlayBox. Engraçado que, quando ela chegava tarde, sempre tinha uma boa razão que ela fazia questão de compartilhar em tom seríssimo com os alunos – para desinteresse total dos ouvintes. Lembrou do relógio e balançou a cabeça para afastar aquelas recordações em preto e branco protagonizadas pela chata da professora.

Davi já descobrira que, se observado com muito atenção, o ponteiro dos minutos pode ser visto se movimentando. São pequenos e discretos deslocamentos da setinha de metal em uma marcha lenta que se opõe diretamente à quantidade de afazeres que se tem no dia. Se o ponteiro das horas também se mexe, certamente ele conseguiria pegá-lo desprevenido, deslizando circunspecto sob o vidro redondo e envelhecido que separava doze números de dois olhinhos atentos. Debruçou os cotovelos no balcão e começou sua vigília. Parecia mais difícil perceber, mas Davi estava decidido a flagrar o ponteiro em seu tímido passeio. Suas pálpebras mal piscavam, pois ele temia que o movimento ocorresse bem nesse obscuro instante em que nossos olhos fecham as cortinas da visão.

Passaram-se alguns minutos até que Davi deu-se conta de algo horrível: ele poderia ficar horas na frente daquele relógio sem sequer saber quanto tempo havia passado. E, pensando bem, será que ele passaria? Poderia o tempo ter parado no momento em que as desastradas mãos de Maria Eugênia romperam o braço mais longo da máquina que nos dita o tempo? Olhou em volta para conferir se nada tinha se alterado bruscamente e começou a imaginar o que aconteceria se as horas não passassem mais. A primeira coisa que surgiu em sua mente foi a cara feia da professora reprovando seus constantes atrasos. Ele nunca mais saberia como chegar na classe na hora! E o horário de seus desenhos animados preferidos? De que adiantava ele ter todos de cor em sua cabeça se nunca teria certeza da hora?

Seus olhos arregalados descansaram um pouco no minuto em que ele percebeu que a suspensão do tempo também teria as suas vantagens. Sua mãe nunca mais saberia se já estava na hora de dormir ou não. Talvez ele não tivesse mais hora para dormir! Na verdade, ele não teria mais hora para nada! Riu sozinho com o pensamento. De fato, havia possibilidade de uma vida mais livre com a perda do tempo. Talvez cada segundo fosse vivido com mais intensidade se ele não precisasse mais se preocupar com o término do que estivesse fazendo. Se nada tinha hora para acabar, ele poderia deixar que tudo fosse feito no tempo que fosse necessário. Se ele sentisse vontade de encurtar a duração do banho, assim o faria. E quando quisesse passar o dia brincando, não teria nada que o impedisse. Ele sempre considerou estranha a ideia de usar todos os dias a mesma quantidade de horas para fazer o que a gente gosta – e o que a gente não gosta também. Se o desejo de fazer as coisas variava dependendo do dia, por que não fazer o relógio acompanhar nosso ritmo em vez do contrário? Mas de agora em diante seria assim! O tempo que ele levaria para cada coisa hoje seria do tamanho que tivesse que ser, diferente de ontem, diferente do dia seguinte. E por aí em diante. Não seria mesmo perfeito se fosse assim?

… Um grito desfez sua nuvem de pensamentos. Era Maria Eugênia, a destruidora do tempo, avisando que o almoço estava pronto. Davi olhou para o relógio banguela novamente. Tentou voltar à trilha de reflexões que afloravam em sua mente, mas não conseguiu reorganizar os vagões de ideias. Balançou a cabeça e deu de ombros. Estava com muita fome, então desconfiou que já devia ser hora de comer. Pôs seus pés de vento a funcionar e correu até a mesa de jantar onde Davi saboreou seu bife com purê de batatas como se não houvesse amanhã.

Além do horizonte

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por Cassiano Rodka

Ao Vito

Com os olhinhos curiosos da infância, Davi fitava o horizonte.
Ficava imaginando quantas coisas se escondiam do lado de lá. Atrás daquela linha misteriosa, estava oculto um mundo inteiro. O sol, quando se punha, mergulhava vagarosamente lá no fundo. Os carros que subiam a lomba desapareciam depois da linha. Imaginava Davi que eles caíssem do outro lado. Ele não tinha certeza para onde iam, nem se algum dia voltariam. Mas invejava que eles descobrissem aquele mundo mágico que ele sabia existir após aquele inalcançável traço. Imaginava que seu pai, quando viajava, ia para adiante do horizonte. Seu pai certamente conhecia tudo o que existia do outro lado, mas não contava nada para ninguém. Era segredo. Um mundo mágico não pode ser propalado aos quatro ventos. Deve ser guardado a sete chaves. Senão não é misterioso, nem mágico. Talvez ele crescido também pudesse ir para lá. Ficava satisfeito ao pensar que um dia conheceria o outro lado. Veria os carros todos caídos em algum lugar, o sol descansando em algum canto e tantas outras coisas que só existem do lado de lá… Seu pensamento foi interrompido pelo grito de sua irmã. Estava na hora de trocar a janela pela televisão. Com um aceno para o horizonte, Davi se despediu do seu enigmático amigo e correu para não perder mais um episódio do seu desenho preferido.