Meu castelo tem um soldado

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por Cassiano Rodka

Meu castelo tem um soldado.
Um sujeito franzino, mas determinado.
Com sua espada trêmula em riste, ele mostra sua firmeza.
Não há dúvida, não há certeza.

Finge que está sempre preparado.
Sabe que, por seu caminho, não passará nada.
Ele está certo e, ao mesmo tempo, errado.
No limbo do acaso, ele está no centro.

Um soldado defende o meu castelo.
“Apenas um?”, você pergunta.
Um. Mas não apenas.

Existe um fogo em seus olhos que queima sem piedade.
Uma teimosia em ficar vivo e me manter também assim.
É um escudo de estanho e lealdade.
Não há exército que possa se aproximar de mim.

Quebra lanças.
Engole balas.
Mastiga tacapes.
Dá nó em maças.
Segura flechas.
Palita os dentes.
Acaba a guerra.
Estanca o sangue.

Meu soldado sempre vencerá.
Até o dia em que chegar o fim.
Para ele ou para mim.

O silêncio

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por Cassiano Rodka

Eu tenho um respeito enorme pelo silêncio. Só o interrompo quando é realmente necessário. Corto finamente seu tecido com algumas poucas palavras, depois deixo ele preencher novamente o espaço ao redor.

Quando tatuo a sua pele, é para que ele ganhe uma voz. A única coisa pior do que uma tatuagem que perde a cor é aquela que perde o seu significado. Se seu grito tem significância, quebre o silêncio. Se seu berro tem importância, estraçalhe o silêncio. Não se preocupe, ele sempre se recupera. E o silêncio que ressurge após um rugido cheio de intenção é sempre mais macio e reconfortante.

No aparente vazio do silêncio, acontecem um bocado de conexões. A mente brinca de ligar os pontos com os pensamentos, costura ideias e esculpe conceitos. Escute o silêncio. Ele fala baixinho, mas diz muito.

Eu falo pouco, mas não menos do que eu gostaria. Só não consigo jogar palavras ao vento como se apedrejasse o silêncio. Sirenes, despertadores, vocês me cansam. Bêbados ao meio-dia, pessoas que falam pelos cotovelos, vocês não sabem o que estão fazendo. Silêncio, um beijão para você.

A gente tem uma parceria, eu e o silêncio. Às vezes ele toma conta do ambiente, outras vezes, sou eu. Ele é um bom amigo e sempre me deixa passar na frente quando eu tenho uma boa risada, uma nova canção ou uma opinião que possa mudar o mundo.

Eu não grito sem motivo, nem silencio o meu intento.

Dou voz ao silêncio. E escuto quem eu sou.

Sociedade dos antissociais

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por Cassiano Rodka

Nossa organização começou de forma secreta. Parecia algo necessário, então alguém fez acontecer. Não sabemos exatamente de quem foi a iniciativa, mas também ninguém quis perguntar. O certo é que temos agora um grupo organizado e nossa voz será ouvida – caso algum dia quisermos falar.

Cansamos de ser repudiados pela massa comunicativa. Não almejamos ser expansivos ou carismáticos, nem queremos ser convidados para todos os seus eventos sociais. Estaremos presentes em casamentos e enterros, viajaremos no dia do seu chá de fraldas e estaremos doentes na noite de sua formatura. Não leve a mal, é a nossa natureza.

A verdade é que não compreendemos esse desespero pelo contato social constante. Apoiamos imensuravelmente as práticas solitárias, da literatura à masturbação. Se dependesse de nós, as salas de cinema teriam divisórias entre as cadeiras e as tele-entregas seriam feitas por robôs. Disponibilizamos um espaço para que os membros tragam esse tipo de proposta para tonar o mundo um pouco menos invasivo. Temos um local bem estruturado onde fazemos nossos encontros anuais. Dizem que é bem legal. Não sei, nunca fui.

Fazer parte de uma sociedade é algo novo para nós, portanto ainda temos muito a aprender. Raramente fazemos reuniões, pois ninguém aparece mesmo. As decisões são usualmente tomadas por e-mail ou por WhatsApp. Mas, de vez em quando, é necessário entrarmos em contato de forma mais pessoal. Aí usamos o Skype.

Os membros acabam se conhecendo mais por se encontrar por acaso na rua. Nos reconhecemos pela falta total de contato visual ou pelo desdém externado pelos extrovertidos. Às vezes, escuto um dizendo: “Esse aí é um antipático de carteirinha”. Quando olho de soslaio para ver quem é, percebo que é mesmo um sócio – ou antissócio, como preferimos chamar. Aí nos cumprimentamos com nossa saudação secreta: cabeça baixa e olhar isento. Depois seguimos cada um para o seu lado antes que aquilo vire um bate-papo.

Nosso dia há de chegar. Quando marcharmos pela rua, será só em pensamento. Quando levantarmos nossa voz, o mundo escutará um sussurro. Em nosso manifesto taciturno, só almejamos uma coisa: nada. Isso mesmo: NADA!

Apenas ignorem nosso grito e vão plantar batatas.

Dicas para chegar na parada certa

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por Cassiano Rodka

Não pare. Não agora. Não nunca. Restam sabe-se lá quantas paradas, mas o trem segue. Não desça no local errado. Acostume-se com o balanço da vagão. Não siga a maioria, cada um tem a sua estação.

Voe alto sem medo do calor do sol. Suas asas aguentam mais do que você imagina. Mantenha o coração adiante, a cabeça como um segurança. Quando cair, levante.

Chore. Não se impeça de vivenciar nada do que você está passando. Deixe o sentimento abraçar você e lhe despir do seu próprio peso.

Faltam sete paradas.

Não fuja do que você não entende. Olhe. Aprenda. Ouça. Experimente. Não engula tudo o que lhe alimentam. Cuspa o que não lhe apetece. Encontre os seus gostos. Saboreie.

Abra a janela. Alimente seus olhos com o que há lá fora. Inspire-se. Aprecie o que os outros produziram. Divida com eles o que você criou. Ninguém sabe fazer do seu jeito. Alguém precisa do que você inventa. Inspire.

Mais duas paradas.

Não arraste o cadáver do passado no meio da sala. Não alimente zumbis. Mantenha o seu cérebro seu.

Acostume-se com os predadores. Jamais se conforme em ser uma presa. Na água, nade dos tubarões. No ar, voe dos falcões. Na terra, fique longe dos filhos da puta. O mundo está cheio deles. Identifique-os. Afaste-se. Apenas deixe que eles lembrem você do valor dos que lhe amam. Costure-se neles.

Chegamos.

Você está na parada certa. Desça. Olhe ao redor e reconheça o valor de estar ali naquele momento. Respire aquele ar. Saboreie aquele silêncio. E ponha-se a caminhar.

Fora da estação, o sol já está se pondo.

O gato

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por Cassiano Rodka

Eu acordo sempre às 8h. Me espreguiço para trás e para frente numa espécie de yoga de gato. Acordo meu dono porque gosto de companhia. Recebo o primeiro carinho do dia (terão muitos mais adiante) e sigo com ele até a cozinha para comer a minha ração e tomar água. Brinco de pegar até cansar e aí volto a dormir. Durmo bastante, mas vario os locais, sempre focado em conforto e boa temperatura. Acordo e observo o mundo pelas janelas da casa. Como. Brinco. Durmo.

Não, não é uma vida extraordinária. É a minha vida. É o que eu faço todos os dias e me mantém feliz. Não é o que você procura para você. É o que eu encontro para mim. E reencontro todos os dias. Minha felicidade é um quebra-cabeças que eu remonto diariamente. Um pedaço aqui, outro ali, outro acolá. Ela está sempre presente, só é preciso achar as peças e usar cada uma delas. Não é pouco, é muito. A vida é simples, quem complica é você. Vai, experimenta! Você sabe onde estão as pecinhas. Vai lá, não é bobagem, monta o seu! E dá uma olhada na imagem que vai formar…

É lindo demais, não?

Como escrever: Um guia para iniciantes

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por Cassiano Rodka

Esses dias me perguntaram como eu faço para escrever. Me pus a pensar sobre o meu processo e percebi que, de fato, eu tenho um modus operandi. Eu sento e escrevo.

Estando cheio de ideias ou sem inspiração alguma, eu sempre faço o mesmo. Com uma caneta na mão ou os dedinhos no laptop, a metodologia não se altera. Eu sento e escrevo.

Cheguei a uma óbvia conclusão: o importante mesmo é o sentar. De pé, eu não escreveria. Sentado é perfeito. Deitado ainda vá, mas é meio complicado – vira para cá, vira para lá. Melhor sentar. E escrever.

A partir daí, comecei a focar minha atenção no que realmente interessa. Passei a investir em cadeiras. Tenho atualmente 17 cadeiras diferentes no meu apartamento. Cada dia escolho uma delas e levo para o escritório, onde eu sento e escrevo.

Isso sem falar nos móveis sentáveis que não foram realmente construídos para isso. Tem um balcão na minha sala que é ideal para aplicar essa técnica. Não é preciso arrastá-lo para o escritório, o local não faz diferença alguma. O negócio é sentar e escrever.

O método sempre me pareceu infalível. Mas, hoje, algo estranho aconteceu. Sentei na minha mais recente aquisição e… Nada. Esperei alguns minutos, tentei forçar as ideias a saírem… Nadica de nada. Sentei e não escrevi.

Não tive a menor dúvida, levantei e saí porta afora com a cadeira na mão. Na loja, botei a boca na vendedora. “Onde já se viu vender uma cadeira com defeito para um escritor?” Ela me olhou assustada, tentou se fazer de louca, disse que não entendia patavinas do que eu estava falando, mas para cima de mim, não. Só um pouquinho, né? “Senta aí e tenta escrever alguma coisa!” Ela nem sentou, nem escreveu.

Ânimos acalmados, fui convidado a me retirar do local por dois seguranças nada simpáticos. O gerente, com cara de abostado, nem se coçou e ainda ficou parado me olhando como se o louco fosse eu. Não trocaram o produto defeituoso, nem devolveram o meu dinheiro. Nunca mais volto lá! E vou reclamar no Facebook! Frustrado, sentei na beirada da calçada e – adivinha! – escrevi.