Encontrado na praia

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por Cassiano Rodka

Entre o mar e a cidade, havia um homem. Prostrado na areia, olhando adiante. Ele não estava aqui, nem lá. Habitava um não-lugar. Não era parte da paisagem urbana ou da metrópole do oceano. Os dedos dos pés agitavam-se entre os grãos, afoitos pelo movimento. A brisa batia leve, sem direção exata. O som das gaivotas questionava sua presença. Os pensamentos vagavam por entre as tatuíras e escondiam-se – misteriosos – debaixo das conchas. Sua sombra agigantava-se às costas sob o sol nascente. Seu reflexo desconstruía-se à frente no vai-e-vem das ondas.

Havia o mar. Havia a cidade. Entre um e outro, um homem foi encontrado na praia.

Jardim de estátuas

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por Cassiano Rodka

Pouco importa o quanto tempo ficamos dentro da casa. Nosso destino ali era mesmo visitar o jardim.

Quando nos libertamos daquele espaço fechado, fomos surpreendidos por uma grande área aberta com diversas estátuas. Havia um círculo de esculturas em tamanho real, homens e mulheres acinzentados, com expressões faciais quase nulas, leves sorrisos nos rostos no que parecia ser uma grande festa. Eu nunca havia visto nada igual.

O jardim era imenso, tomado pelas mais diferentes figuras, todas com muitos detalhes, cada uma em uma posição diferente, um trabalho certamente de anos. As mãos delicadas seguravam taças, bandejas, cornucópias. Algumas figuras estavam nas pontas dos pés, como se estivessem flutuando, em êxtase. Haviam nos falado que era um lugar especial, mas não estávamos preparados para tanta beleza. Entramos em meio ao círculo, observando, estupefatos, a grandeza daquela construção. Uma das mulheres tinha sua cabeça pendendo no ombro de outra, um cansaço ébrio compartilhado. Um homem seminu bebia de um chifre com sua cabeça pendendo para trás para garantir que não sobrasse uma só gota.

A noite colaborava com o espetáculo. O céu exibia nuvens espiraladas, que pareciam ter sido moldadas especialmente para enquadrar as cenas compostas por aqueles seres inanimados. A festa a que eles pertenciam aparentava ser uma grande celebração, e nossas mentes trabalhavam em imaginar a que ou a quem ela era dedicada. Quanto mais andávamos por entre as estátuas, mais éramos tragados para dentro daquele universo. Era possível escutar os sons de suas risadas e o burburinho de várias vozes falando ao mesmo tempo. Aos poucos, fui percebendo a presença de alguns seres mitológicos misturados aos humanos, provavelmente a representação de deuses. Talvez a festa fosse para eles. Um ser metade homem, metade animal abraçava por trás uma mulher, segurando seu braço em direção a um cálice. Talvez a festa fosse regida por eles. Uma figura feminina com três olhos tinha seus dedos pousados nos ombros de uma mulher sentada com um bebê no colo. Ambas observavam silenciosamente a criança.

Sem dizer nada, minha irmã voltou-se para o caminho que nos devolveria à casa. Minha mãe pegou o meu braço e começamos a caminhar levemente, com um passo hesitante, dissipando com certa dificuldade o que havíamos contemplado naquele cenário.

Senti um movimento à minha esquerda. Outro logo em seguida, alguém correndo por trás de nós dois. Em um susto, vi com clareza um dos homens acinzentados passando apressado entre mim e minha mãe, nos separando por alguns instantes. Logo, várias estátuas ao meu redor botavam-se em disparada em uma mesma direção. Cada uma despertando no seu próprio tempo, mas todas com um desejo atribulado de sair dali. Repentinamente, uma multidão de figuras passava por nós sem grandes cerimônias, quase derrubando quem estivesse parado. O silêncio fora trocado pelo som de seus corpos se movimentando. Não se escutavam vozes, apenas movimento. Seus olhares e suas intenções continuavam incompreensíveis. Minha mãe estava um tanto assustada, mas ao mesmo tempo seus olhos brilhavam com um diletante fascínio.

Em meio ao tumulto, um estouro. Uma das esculturas havia tombado. Só então percebi que haviam diversas figuras descolando-se de algumas colunas que circundavam o jardim. Gárgulas tentavam alçar voo e despedaçavam-se aos nossos pés. O barulho tornava-se aterrador. Pedaços de pedra se acumulavam ao nosso redor, mas ninguém cessava sua deserção aflita. Não sei dizer por quanto tempo isso se deu, mas a sua interrupção pareceu tão repentina quanto o seu início.

Quando o silêncio tomou conta do jardim novamente, não havia sinal de nenhuma das estátuas. Em um mar de escombros, havia apenas minha mãe, minha irmã e eu. Abraçados, com expressões indecifráveis, em um semicírculo. Estáticos.

Permanência

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por Cassiano Rodka

Me corte um pedaço a cada dia
Jogue em minha cabeça um balde de água fria
E, antes que eu me aqueça, me negue alforria
No suíngue deste açoite, eu encontro a minha folia

Traga sua nuvem, anoiteça o meu dia
Desça o sarrafo e quebre os dentes da alegria
Faça a sua marcha, era tudo o que eu queria
No enterro de meus ossos, eu floresço em melodia

Um novo ano

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por Cassiano Rodka

Espero há quase duas horas.

Sentado em uma desconfortável cadeira, aguardo a vinda de uma enfermeira que parece a Bette Midler. Eu achei ela a cara da Bette Midler. A sala de espera parece ter uma mistura de pacientes, acompanhantes e crianças que não sabem bem o que estão fazendo ali. No ar, paira aquele clima tenso que parece ser uma regra em todos os hospitais.

Minha espera é coberta de angústia, talvez sem motivo, eu sei. Mas não gosto de hospitais. Sinto que as doenças estão à espreita nas sombras, aguardando minha distração para se jogarem na minha jugular. Me sinto disponível a todas elas, como se estivesse ali sentado esperando que uma me escolha.

O hospital tem um falso silêncio. Há vários barulhos ao meu redor, mas a gente se acostuma com todos e eles transformam-se em uma apreensiva trilha sonora. É uma maçaroca de vozes, choros, conversas, ruídos de aparelhos hospitalares e aquele tique-taque ameaçador do relógio…

Ouço a senhora ao meu lado comentar com uma jovem que já teve câncer duas vezes. A enfermeira que parece a Bette Midler surge na minha frente e eu me levanto. Opa! Ela sorri e diz que não é a minha vez ainda e leva, num semiabraço, uma velhinha com um andadouro.

Um jovem de boné e óculos escuros passa com uma receita na mão e (o que eu imagino que sejam) os seus remédios no bolso. Eles fazem um barulho de chocalho a cada passo, dando um ritmo fúnebre a sua caminhada. Não sei o que ele tem, mas a lenta marcha faz parecer que não seja nada bom. E eu continuo esperando.

Pode parecer bobagem, mas essa espera sempre me faz lembrar que estamos sempre aguardando pelo dia em que a nossa história acaba. Não acredito em ressurreição, portanto creio que quando tudo termina… Bem, termina de vez. Cada um de nós, da senhora com andadouro à criança que não sabe bem por que está ali, está em uma lenta caminhada em direção ao fim. Apocalíptico, eu? Talvez. Mas é verdade.

A enfermeira que parece a Bette Midler para na minha frente. Agora sim, é a minha vez. Eu a sigo, nervoso, numa marcha vagarosa parecida com a do cara de boné. Sinto um medo de sei-lá-o-quê, aquela incerteza do que vem pela frente. Escuto a maçaroca de sons, mais indefinida do que nunca. Com exceção do tique-taque do relógio…

“É aquela ali”, me diz a Bette Midler batendo a sua unha comprida contra uma janela de vidro.

E eu a vejo pela primeira vez.

Inquieta, mexendo as mãozinhas. Sua cabecinha pequenina tem pouquíssimos cabelos, os primeiros habitantes daquela carequinha lunar. O narizinho é tão minúsculo que mal aparece em seu rostinho. A boquinha, meio torta e babada, se movimenta como se já quisesse manifestar as suas primeiras ideias. Ela é linda. Não, sério! Ela é a coisa mais linda que eu já vi na vida. Eu olho incessantemente para ela e posso jurar que ela olha para mim.

E a minha vida recomeça.

Meu castelo tem um soldado

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por Cassiano Rodka

Meu castelo tem um soldado.
Um sujeito franzino, mas determinado.
Com sua espada trêmula em riste, ele mostra sua firmeza.
Não há dúvida, não há certeza.

Finge que está sempre preparado.
Sabe que, por seu caminho, não passará nada.
Ele está certo e, ao mesmo tempo, errado.
No limbo do acaso, ele está no centro.

Um soldado defende o meu castelo.
“Apenas um?”, você pergunta.
Um. Mas não apenas.

Existe um fogo em seus olhos que queima sem piedade.
Uma teimosia em ficar vivo e me manter também assim.
É um escudo de estanho e lealdade.
Não há exército que possa se aproximar de mim.

Quebra lanças.
Engole balas.
Mastiga tacapes.
Dá nó em maças.
Segura flechas.
Palita os dentes.
Acaba a guerra.
Estanca o sangue.

Meu soldado sempre vencerá.
Até o dia em que chegar o fim.
Para ele ou para mim.