Crossroads

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Ao Chuck, trôpego e constante

Diante da encruzilhada de um novo modo de pensar, o mundo se revela imenso. Grande como um cachalote, crescente como uma avalanche. Os pés se fincam na terra e os olhos se enchem de horizontes. Como a chegada de uma onda na praia ou um novo livro na estante.

O descolar da bunda do sofá e o lançar-se porta afora são magnólias postas ao vento enquanto a chuva, inconsequente, chora. O simples andar na rua torna-se revolucionário e consistente. Como o bater dos dedos nas teclas de um laptop, como um cálice borbulhante.

Me ponho desnudo no asfalto com a fluidez de água corrente. Conecto-me com o adiante seduzindo a serpente. Maçã não é pecado e o paraíso está posto na gente. Não é um ato de vandalismo, é o saborear a semente.

Quando o vento bate, eu o sinto nas costas. Não tanto um empurrão, um convite. Nem pra esquerda, nem pra direita, pra frente. Sem soprar escolhas ao pé do ouvido, apenas dirigindo a caminhada a um horizonte distante. Um desafio colocado na testa e eu me encontro caminhante.

Com o sabor inebriante das incertezas, sinto o passo firme em um instante. Como um sapato novo, onde o conforto (ainda) não está presente. Deixo os dedos reclamarem e as solas tornarem-se um tanque. Em cada tropeço, estou eu, uma pegada adiante.

A canção de Fausto

A canção de Fausto_P2

De prazer em prazer
Quem é o próximo a entrar?
Fecha a porta e abre a boca
Não esquenta o teu lugar

Larga a máscara na entrada
E qualquer boa intenção
Deixa bater a porta
Mas não me mova o coração

Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?
Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?

De vazio em vazio
Quem te disse pra ficar?
Abre a porta e fecha a boca
Não espera eu ligar

Deixa a alma na saída
E o amargo da omissão
Larga de leve a porta
Mas não me leve o coração

Até quando eu vou seguir?
Perco a aposta pra ganhar
Até quando eu vou seguir?
E por quem eu vou cessar?

O início de algo

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Lá de longe, você olha para frente.

É uma senhora distância. Não dá para entender bem ainda se é uma subida íngreme ou uma vertiginosa descida. Nesse momento, só uma coisa é certa: você não estará mais aqui.

O pé direito firma o chão, o pé esquerdo dá uma hesitada. Entre passo e contrapasso, uma linha costura uma nova caminhada. Pronto! Você já está em movimento. Desamarrou a corda do que havia antes, saiu navegante em busca do depois. Curiosidade como um vento, confiança no quadrante. Bússola mais perdida que avó em fliperama. Mas a embarcação segue o seu rumo.

Não demora a fecharem-se umas nuvens e choverem imprevistos. Nunca tardam. E dê-lhe balde e remendo e guarda-chuvas. Mas há orgulho no suor e beleza no improviso. E olha ali você e você e você e você se multiplicando em quatro e segurando as pontas. Estica esse troço que vai!

Não esqueça de delegar bem as tarefas. Relaxar e curtir a jornada é vital. Deixa o fotógrafo fotografar, o escritor escrever e o folgado folgar. Aprenda a sentir o desequilíbrio como uma dança. A maresia, como uma criança. Teimosa, mas ela cansa. Quer vomitar, vomite. Chorar? Chore. Mas não deixe que nada suje a luneta.

Seria um raio de sol surgindo no horizonte? Não olhe muito que cega! Vai deixando ele chegar e observe o que ele está iluminando. Quanta coisa nova ao redor que você nem esperava alcançar. Vai se ajeitando no seu novo habitat, mas também não se acostume muito que a inércia cria mofo. Pare um pouquinho, respire esse ar fresco e curta a vista.

Lá do alto, você olha para baixo.

Canção folk

Canção folk_P2

Sou como uma canção folk. Simples e desnudo, me exponho a quem quiser me enxergar. Tenho meu coração estatelado no chão, transeuntes no celular. Meus dedos beliscam as cordas na tentativa de te acordar. Meus acordes ninguém escuta, mas eles seguem a cantar. Capturo o sol, vou de ré, que dó que dá. Meu si é sempre menor, minha canção eu sei de cor. Levo nas costas o violão, à espera de um trem que talvez nem venha me buscar. Passo no rádio da senhora, não no streaming do rapaz. Estou refletido nos teus óculos, ricocheteando no teu olhar. Os tempos são outros. Os outros, nem aí. Um dia, eu fui. Hoje, eu vou.

Se perdeste o trem onde eu estou, nosso momento já passou.
Lá de longe, eu sigo reto. Novo show.

Avisa o mundo

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Vai lá e avisa o mundo
Que tu tá preparado
Que não há nada que ele te jogue
Que não possa ser mastigado

Fala ali pra ele
Que tudo foi engolido
Sapo, príncipe, princípios
Tudo já foi transformado

Revela que todo mistério
Já foi por ti desvendado
Que não há truque ou mágico
Que possam fugir teu rugido

Diz tudo o que tu pensa
Sobre essa falta de rebolado
Baixa as calças do mundo
Deita e vira pro lado

Conto de fadas – Capítulo III

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Achei que era carruagem, era carroça
Príncipe de nada, rei da troça
Sambando sem molejo, maldizendo a bossa
Achei que era carruagem, era carroça

Achei que era castelo, era palhoça
Um guerreiro tão belo, uma armadura que coça
Bancando o bobo da corte, mergulhando na fossa
Achei que era castelo, era palhoça

Achei que era permitido, talvez não possa
Dar a mão ao inimigo, fazer vista grossa
Então me ponho de castigo, era uma vez essa joça
Achei que fosse consumado, falha nossa!…

O segundo capítulo

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Encontrei um livro atirado no meio do caminho. A capa era linda, o suficiente para eu me abaixar e pegar o exemplar. Comecei a ler e, logo no primeiro capítulo, fiquei fascinado com a história. O enredo era envolvente, os personagens prometiam um grande desenvolvimento psicológico, a interação entre eles era ótima, e a trama parecia ser diferente de tudo que eu já havia visto…

Mas aí a surpresa!… Não havia segundo capítulo!… As páginas estavam em branco. Sem uma palavra. Ah, a frustração!… Eu já havia me envolvido tanto, precisava saber para onde aquela história iria. Não contente com a falta de continuidade, decidi que era preciso tomar as rédeas daquela situação. Sentei na calçada e me pus a escrever. No início, parecia um pouco conturbado e eu não tinha certeza se eu daria conta de manter o nível do primeiro capítulo. Mas, aos poucos, a história foi tomando impulso. Os personagens eram excelentes e me ajudaram um bocado. Logo logo estavam a tomar suas próprias decisões, eu só precisava empurrá-los de leve com a ponta da minha caneta. O enredo se costurava tão naturalmente que era como se ele estivesse me controlando e não o contrário. Cheguei a pensar que nada que eu havia feito anteriormente poderia chegar perto de superar aquela história.

Depois de algumas boas páginas escritas, uma segunda surpresa!… Havia um terceiro capítulo! Depois de páginas e mais páginas de folhas brancas? Uma provável má impressão do livro. Talvez fosse esse o motivo de o terem abandonado no caminho. Sentei no meio-fio novamente e me pus a ler. Curiosamente, o capítulo começava com uma certa continuidade daquilo que eu havia escrito. Me deu uma estranha, mas boa sensação. Parecia que a história ia, de fato, tomar a direção que eu estava prevendo. Mas alguns personagens começaram a tomar atitudes que eu não esperava… A história se desdobrou por curvas inusitadas e eu não tinha mais o poder de contorná-la com a minha caneta para pô-la de novo no caminho que eu pretendia. Começou a ficar impossível de seguir aquela leitura… Uma tristeza se apoderou de mim e atirei o livro no chão. Segui em frente sem olhar para trás. Triste em saber que alguém, algum dia, o encontraria…