Conto de fadas – Capítulo III

conto-de-fadas-capitulo-iii_p2

por Cassiano Rodka

Achei que era carruagem, era carroça
Príncipe de nada, rei da troça
Sambando sem molejo, maldizendo a bossa
Achei que era carruagem, era carroça

Achei que era castelo, era palhoça
Um guerreiro tão belo, uma armadura que coça
Bancando o bobo da corte, mergulhando na fossa
Achei que era castelo, era palhoça

Achei que era permitido, talvez não possa
Dar a mão ao inimigo, fazer vista grossa
Então me ponho de castigo, era uma vez essa joça
Achei que fosse consumado, falha nossa!…

O segundo capítulo

o-segundo-capitulo_p2

por Cassiano Rodka

Encontrei um livro atirado no meio do caminho. A capa era linda, o suficiente para eu me abaixar e pegar o exemplar. Comecei a ler e, logo no primeiro capítulo, fiquei fascinado com a história. O enredo era envolvente, os personagens prometiam um grande desenvolvimento psicológico, a interação entre eles era ótima, e a trama parecia ser diferente de tudo que eu já havia visto…

Mas aí a surpresa!… Não havia segundo capítulo!… As páginas estavam em branco. Sem uma palavra. Ah, a frustração!… Eu já havia me envolvido tanto, precisava saber para onde aquela história iria. Não contente com a falta de continuidade, decidi que era preciso tomar as rédeas daquela situação. Sentei na calçada e me pus a escrever. No início, parecia um pouco conturbado e eu não tinha certeza se eu daria conta de manter o nível do primeiro capítulo. Mas, aos poucos, a história foi tomando impulso. Os personagens eram excelentes e me ajudaram um bocado. Logo logo estavam a tomar suas próprias decisões, eu só precisava empurrá-los de leve com a ponta da minha caneta. O enredo se costurava tão naturalmente que era como se ele estivesse me controlando e não o contrário. Cheguei a pensar que nada que eu havia feito anteriormente poderia chegar perto de superar aquela história.

Depois de algumas boas páginas escritas, uma segunda surpresa!… Havia um terceiro capítulo! Depois de páginas e mais páginas de folhas brancas? Uma provável má impressão do livro. Talvez fosse esse o motivo de o terem abandonado no caminho. Sentei no meio-fio novamente e me pus a ler. Curiosamente, o capítulo começava com uma certa continuidade daquilo que eu havia escrito. Me deu uma estranha, mas boa sensação. Parecia que a história ia, de fato, tomar a direção que eu estava prevendo. Mas alguns personagens começaram a tomar atitudes que eu não esperava… A história se desdobrou por curvas inusitadas e eu não tinha mais o poder de contorná-la com a minha caneta para pô-la de novo no caminho que eu pretendia. Começou a ficar impossível de seguir aquela leitura… Uma tristeza se apoderou de mim e atirei o livro no chão. Segui em frente sem olhar para trás. Triste em saber que alguém, algum dia, o encontraria…

Este exato momento

este-exato-momento

por Cassiano Rodka

Nada me encanta mais do que este exato momento. O inigualável sabor do início de algo que não sei bem ainda o que é, mas que será o que for em breve. É a luz refletindo na cabecinha do bebê que chega ao mundo chorando. É a primeira frase de um livro que reconheço que vou gostar já nas primeiras palavras. É Mrs. Dalloway indo ela mesma comprar as flores, é a busca pela Maga – encontrarei a Maga? – e são os olhos no teto, a nudez dentro do quarto. É como assistir um filme e torcer pelo herói que, veja bem, sou eu mesmo. É o primeiro registro da (provável) melhor viagem da minha vida. É o gosto do café às nove da manhã, o fechar dos olhos na última hora do dia. É o inaugural e incerto passo em uma outra direção. Qual? Outra. É o aceitar da transformação, o atrapalhado bater das novas asas. É o convite que te faço para entrar na minha vida, bagunçar tudo, mudar os móveis de lugar e achar teu próprio espaço no meu álbum de fotografias.

Deixa estar

deixa-estar_p2

por Cassiano Rodka

Sei que estou apaixonado quando te vejo piscar. Num simples e natural gesto, me ponho a sorrir. Vibro estupidamente com o teu desaparecer. O teu sorriso manso, o teu silêncio longo. Sei que te amo porque não tenho a menor razão para te querer. Num coçar de barba, num esticar de perna, num respirar, me sinto maior. Me pelo em saber que posso te alterar. Clarear teu gesto, prender teu rosto, te apagar. Se nessa distância é possível te ter, deixo estar. E sigo cego a tatear; em um cálice vinho, em uma mesa de bar.

Encontrado na praia

Encontrado na praia_edit.jpg

por Cassiano Rodka

Entre o mar e a cidade, havia um homem. Prostrado na areia, olhando adiante. Ele não estava aqui, nem lá. Habitava um não-lugar. Não era parte da paisagem urbana ou da metrópole do oceano. Os dedos dos pés agitavam-se entre os grãos, afoitos pelo movimento. A brisa batia leve, sem direção exata. O som das gaivotas questionava sua presença. Os pensamentos vagavam por entre as tatuíras e escondiam-se – misteriosos – debaixo das conchas. Sua sombra agigantava-se às costas sob o sol nascente. Seu reflexo desconstruía-se à frente no vai-e-vem das ondas.

Havia o mar. Havia a cidade. Entre um e outro, um homem foi encontrado na praia.

Jardim de estátuas

jardim-de-estatuas_p2

por Cassiano Rodka

Pouco importa o quanto tempo ficamos dentro da casa. Nosso destino ali era mesmo visitar o jardim.

Quando nos libertamos daquele espaço fechado, fomos surpreendidos por uma grande área aberta com diversas estátuas. Havia um círculo de esculturas em tamanho real, homens e mulheres acinzentados, com expressões faciais quase nulas, leves sorrisos nos rostos no que parecia ser uma grande festa. Eu nunca havia visto nada igual.

O jardim era imenso, tomado pelas mais diferentes figuras, todas com muitos detalhes, cada uma em uma posição diferente, um trabalho certamente de anos. As mãos delicadas seguravam taças, bandejas, cornucópias. Algumas figuras estavam nas pontas dos pés, como se estivessem flutuando, em êxtase. Haviam nos falado que era um lugar especial, mas não estávamos preparados para tanta beleza. Entramos em meio ao círculo, observando, estupefatos, a grandeza daquela construção. Uma das mulheres tinha sua cabeça pendendo no ombro de outra, um cansaço ébrio compartilhado. Um homem seminu bebia de um chifre com sua cabeça pendendo para trás para garantir que não sobrasse uma só gota.

A noite colaborava com o espetáculo. O céu exibia nuvens espiraladas, que pareciam ter sido moldadas especialmente para enquadrar as cenas compostas por aqueles seres inanimados. A festa a que eles pertenciam aparentava ser uma grande celebração, e nossas mentes trabalhavam em imaginar a que ou a quem ela era dedicada. Quanto mais andávamos por entre as estátuas, mais éramos tragados para dentro daquele universo. Era possível escutar os sons de suas risadas e o burburinho de várias vozes falando ao mesmo tempo. Aos poucos, fui percebendo a presença de alguns seres mitológicos misturados aos humanos, provavelmente a representação de deuses. Talvez a festa fosse para eles. Um ser metade homem, metade animal abraçava por trás uma mulher, segurando seu braço em direção a um cálice. Talvez a festa fosse regida por eles. Uma figura feminina com três olhos tinha seus dedos pousados nos ombros de uma mulher sentada com um bebê no colo. Ambas observavam silenciosamente a criança.

Sem dizer nada, minha irmã voltou-se para o caminho que nos devolveria à casa. Minha mãe pegou o meu braço e começamos a caminhar levemente, com um passo hesitante, dissipando com certa dificuldade o que havíamos contemplado naquele cenário.

Senti um movimento à minha esquerda. Outro logo em seguida, alguém correndo por trás de nós dois. Em um susto, vi com clareza um dos homens acinzentados passando apressado entre mim e minha mãe, nos separando por alguns instantes. Logo, várias estátuas ao meu redor botavam-se em disparada em uma mesma direção. Cada uma despertando no seu próprio tempo, mas todas com um desejo atribulado de sair dali. Repentinamente, uma multidão de figuras passava por nós sem grandes cerimônias, quase derrubando quem estivesse parado. O silêncio fora trocado pelo som de seus corpos se movimentando. Não se escutavam vozes, apenas movimento. Seus olhares e suas intenções continuavam incompreensíveis. Minha mãe estava um tanto assustada, mas ao mesmo tempo seus olhos brilhavam com um diletante fascínio.

Em meio ao tumulto, um estouro. Uma das esculturas havia tombado. Só então percebi que haviam diversas figuras descolando-se de algumas colunas que circundavam o jardim. Gárgulas tentavam alçar voo e despedaçavam-se aos nossos pés. O barulho tornava-se aterrador. Pedaços de pedra se acumulavam ao nosso redor, mas ninguém cessava sua deserção aflita. Não sei dizer por quanto tempo isso se deu, mas a sua interrupção pareceu tão repentina quanto o seu início.

Quando o silêncio tomou conta do jardim novamente, não havia sinal de nenhuma das estátuas. Em um mar de escombros, havia apenas minha mãe, minha irmã e eu. Abraçados, com expressões indecifráveis, em um semicírculo. Estáticos.