Permanência

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por Cassiano Rodka

Me corte um pedaço a cada dia
Jogue em minha cabeça um balde de água fria
E, antes que eu me aqueça, me negue alforria
No suíngue deste açoite, eu encontro a minha folia

Traga sua nuvem, anoiteça o meu dia
Desça o sarrafo e quebre os dentes da alegria
Faça a sua marcha, era tudo o que eu queria
No enterro de meus ossos, eu floresço em melodia

Meu castelo tem um soldado

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por Cassiano Rodka

Meu castelo tem um soldado.
Um sujeito franzino, mas determinado.
Com sua espada trêmula em riste, ele mostra sua firmeza.
Não há dúvida, não há certeza.

Finge que está sempre preparado.
Sabe que, por seu caminho, não passará nada.
Ele está certo e, ao mesmo tempo, errado.
No limbo do acaso, ele está no centro.

Um soldado defende o meu castelo.
“Apenas um?”, você pergunta.
Um. Mas não apenas.

Existe um fogo em seus olhos que queima sem piedade.
Uma teimosia em ficar vivo e me manter também assim.
É um escudo de estanho e lealdade.
Não há exército que possa se aproximar de mim.

Quebra lanças.
Engole balas.
Mastiga tacapes.
Dá nó em maças.
Segura flechas.
Palita os dentes.
Acaba a guerra.
Estanca o sangue.

Meu soldado sempre vencerá.
Até o dia em que chegar o fim.
Para ele ou para mim.

Esteja presente

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por Cassiano Rodka

Esteja onde estiver, esteja presente.
Não fique para trás, nem mais adiante.
Esteja ali precisamente.

Desligue o celular, abra sua mente.
Escute minha voz e saboreie nosso instante.
Não permita que nada exista além da gente.

Não perca de vista o que lhe faz contente.
A grama é mais verde onde quer que você cante.
Se lhe apetece, experimente.

Apague a luz e termine o expediente.
Deixe o chefe e as ferramentas na estante.
Ninguém regula o que você sente.

Lembre que a vida acaba e a morte é iminente.
Saiba que o agora passa em um rompante.
Não deixe seu desejo carente.

Esteja ali precisamente.
Não fique para trás, nem mais adiante.
Esteja onde estiver, esteja presente.

A dança da Baderna

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por Cassiano Rodka

Entra no palco e brotam as palmas
Sobe na ponta e desponta em cores
Desce na planta do pé e aflora

Chuta pra longe os conservadores
Cospe na cara dos bons costumes
O seu concerto é desconcertante

Abre seus braços e redemoinha
Cria uma beleza deveras ousada
Ouve-se nas fileiras: “Que depravada!”

Do lundum ao arabesque
Do grand jeté à umbigada
Quem nasce do caos não é bem falada
E quem fala demais não sabe de nada

Eu, eu, eu (Um poema sobre Eu)

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por Cassiano Rodka

Só penso em Eu.
Quando acordo: Eu. Quando durmo: Eu também.
Ao longo do dia, sinto o mundo a se curvar.
Quando subo num banco, é Eu num altar.

Quando penso em nós, só dá Eu.
É melhor para os dois o que é bom para Eu.
O que é meu é propriedade intocável de Eu.
E o que é seu também deveria ser.

Quando Eu deseja silêncio, o universo deve se calar.
Porém se o barulho provém de Eu, ai de quem reclamar.
Eu é grande, Eu é pai. Eu é a salvação!
Eu salva. Mas salva quem? Salva Eu. E mais ninguém.

Ninguém me dá ordens, só respondo a Eu.
Eu é meu pastor e nada me faltará.
Tem gente que acredita em outros.
Mas, para mim, só há um.
Este Único. Ego Urgente.
Esfinge Utópica.
Eu, eu, EU!

EntendeU?

Coisinhas

coisinhas

por Cassiano Rodka

É nesses abraços-sanfona que variam às cenas do filme.
E nesses beijos que surgem por entre as taças de vinho branco.
Nessas músicas que cantas com tua vida exposta.
E nas danças que ondulas sob o holofote dos meus olhos.

É nesse cuidado zeloso que condena meus espirros.
E nesse seriado que nos une em uma só risada.
Está nesse apuro louco de não errar o passo.
E estar sempre forte, preparado e ereto.

Está na minha camiseta que veste teu corpo.
E nos teus minutos em que estou no proscênio.
Na tatuagem que cruza teu peito.
E no leal abraço de quem sempre retorna.

É aí nessas coisinhas
que encontro teu
mais puro
amor.

Desenho

desenho

por Cassiano Rodka

                                               Ao Sebi

Na borda da calçada,
há um menino e um giz.

Entre traço e intenção,
dançam as possibilidades.

No caminho do vento,
um olhar os contempla.

Vê surgir uma curva inexata,
um vago escopo.

E torce para que dali saia
Um sorriso ou um guarda-chuva.

Foge enquanto pode

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por Cassiano Rodka

Foge enquanto pode.
Vai pra longe do meu silêncio incômodo.
E te afasta da minha prece bêbada.
Escapa do meu coração paterno
e desses dedos no teu cabelo.
Foge da minha jaula aberta.
Te safa de ser mais uma musa
antes que as minhas palavras
te contornem a silhueta.
Ninguém quer um Machado de Assis de skate
ou um Tom Jobim sem calças.
Foge que ainda é tempo.

Fuga nº3: Fogo

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por Cassiano Rodka

– Caiu. – Disse ele com ar de besta.

A mãe, protetora como sempre,
concordou e defendeu o pequenino:

– Foi sem querer, minha querida.

Mas a menina fitava fixamente a lareira.

Enxergava os fios loiros de lã ardendo nas chamas,
o petit pois do vestidinho transformando-se em um triste cinza
e os olhinhos cor de mel derramando-se em lágrimas de plástico.

E podia ter certeza que algo queimava dentro dela também.