Continuidade dos porquês

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Por entre as pedras que desabam morro abaixo, ele caminha. No disparo de uma manada de búfalos, ele se encontra na direção oposta. De encontro à avalanche, passo a passo, de mansinho, ele continua. Sob o sol quente, ele sua. Contra o vento frio, ele aperta a manta e o casaco. Em uma marcha rumo a algum lugar que o espera, o soldado anda desarmado. Sua parada solitária e invisível ganha os aplausos inaudíveis de ninguém. É uma procissão só sua onde não há santos ou salvadores. Abaixo da chuva de granizo, sem proteção ou razão, ele para. Assustado, ele se pergunta: “por quê?”. E as respostas parecem não chegar. Não há nada além dele e as marcas de sapato que sua sombra encobre. Mas, assim como ele, molhados, escoriados, frágeis e insistentes, os porquês começam a surgir. E são tantos, que preenchem de mansinho o vazio ao seu redor. Um a um, vão se empilhando, dando forma a algo que remete uma escada. A fragilidade ganha aspecto sólido e o seu impulso o leva ao primeiro degrau. Equilibrado entre amor e pura teimosia, sentindo a continuidade dos porquês nas solas dos pés, ele segue.

Camadas

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por Cassiano Rodka

Às vezes tenho a impressão de que a vida vai tomando forma em camadas. De tempos em tempos, uma nova camada se sobrepõe à outra, sem substituí-la ou alterá-la. Ela adiciona-se às anteriores, preenchendo espaços e dando forma a algo maior.

Por exemplo, você frequenta um bar há anos e, de repente, descobre que a garçonete é irmã da sua vizinha. E o dono do bar esteve em todos os mesmos shows de jazz que você compareceu nos últimos dez anos e vocês só se conheceram ontem. E foi ele quem comprou aquele disco que você estava na dúvida se levava pra casa ou não e, em questão de minutos, alguém apareceu na loja e levou. Era ele! E ele acaba de contar que mora na Rua Cândido Silveira, em um prédio onde você fazia natação aos 12 anos. E amanhã, em uma conversa informal, você vai descobrir que a vizinha irmã da garçonete também nadava lá. Parou quando viu uma criança bater a cabeça na piscina e você lembrará daquele sangue misturando-se ao cloro e chegará à conclusão que vocês eram colegas. E se perguntará por onde anda o garoto que machucou a testa… E algum dia talvez você descubra que ele foi o cara que vendeu o disco que você queria ao dono do bar. Ou que ele foi casado com a garçonete irmã da vizinha durante os anos em que você frequentou o bar sem conhecê-la. Ele pode ser, ainda, aquele baixista que você e o dono do bar aplaudiram de pé (em cadeiras nem tão distantes) há dois anos atrás, quando ainda não se conheciam.

Tudo vai acontecendo ao mesmo tempo; são diversas páginas sendo escritas a cada dia, mas a gente só consegue ler algumas poucas. E há um certo prazer em ler novos capítulos que remetem a velhas histórias e que preenchem, misteriosa e lentamente, isso tudo que chamamos humildemente de vida.

O carinha e o cão

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por Cassiano Rodka

Ao Fabs

A foto era assim: tinha ele e um cachorro. Ele estava sentado nos degraus de uma escada e segurava uma das patas do cão. Era a quinta ou sexta imagem que eu via dele, mas, de alguma forma, foi ali que o enxerguei pela primeira vez. Sem o sorriso preparado da número 1 ou a pose ensaiada da número 3. Não tinha gel ou camisa bem passada. Era um carinha sentado com o seu cão no pátio de sua casa. Ao seu redor, não havia os pôsteres de super-heróis da número 4, nem os CDs de rock inglês bem posicionados na composição da número 2. Ele e o cachorro eram emoldurados por grandes vasos com plantas e pela sombra das grades de cima do muro, que deitavam sua silhueta nas paredes amarelas da casa. Não que algum deles percebesse qualquer uma dessas coisas. O cão amarrava sua atenção no afago que devolvia ao dono. Ele, por sua vez, mantinha seus olhos baixos em um doce zelo que abraçava, taciturno, o cão. Na fidelidade do toque, revelava-se a longa parceria. Na melancolia do leve sorriso, desenhava-se uma velada lacuna. Uma vida atribulada se espalhava na barba por fazer e se aprofundava secretamente em algumas cicatrizes. Na busca por conforto, encontrava-se (ou procurava-se) sentado nos últimos degraus daquela escada. Distraidamente equilibrado entre o intimidante início de uma descida e o triunfante final de uma subida, só havia ele ali. E o cão. E foi assim que eu conheci o cara.

Nesses momentos

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Mas e não é nesses momentos que a gente se encontra? Quando deixamos de lado essa exagerada atenção no rosto do outro e olhamos para nós mesmos. Quando as atitudes encenadas viram história e nossos gestos tornam-se novamente naturais e inerentes. Sem expectativa ou treino, fazemos o que nos pertence fazer e somos o que nos cabe ser. Nesses momentos, encontro isto aqui. Não aquilo que esperavas colher em mim, nem aquele que intentei te oferecer, mas isto aqui que me é intrínseco. Sou tão verdadeiramente eu sem teus olhos postados em mim que, com clareza, me vejo, me escuto e me reconheço. Então te vai. Parte que tua sombra não me conforta mais; já não me oferece nada além de um véu de escuridão.

Papel-toalha

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por Cassiano Rodka

A David Gordon Green, Mathias Eick e, por fim, à Miranda

E quando o caminho não acompanha o passo? E as linhas do mapa passam a ser um emaranhado de possíveis venturas? Nos perdemos do guia e ainda por cima chove, sem falar na névoa. Cadê a estrada de tijolos amarelos? Por onde se esconde o Mestre dos Magos? Até mesmo o piscar crescente e incômodo do taxímetro seria um conforto. Mas o bumerangue foi mais longe do que o alcance da mão e a apatia dos filhos do vizinho vence a vontade de escalar o telhado. Desistir, voltar atrás, sentar e chorar, fingir que não viu… São todas opções. Mas, aqui onde eu vivo, a gente segue em frente. Como um trompete que improvisa costurando os acordes de um piano, nós pegamos um papel-toalha e fazemos dele um coador de café. Um origami de dona de casa, assim como um astuto remendo na calça ou um porta-lápis de garrafa PET. Melhor que vestir o luto no desconforto do fraque. Ou puxar o breque no aborto da luta. Se parece ter fim a via, criamos melodia.

O entretempo

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É como o espaço vazio entre o ponto final e a maiúscula da frase seguinte.
Não tem nada ali, mas ele tem a sua função. Há alguma coisa naquele vazio. E nós todos, secretamente, sabemos.

É ali que agora me vejo. Entre uma coisa e outra. Naquele exato momento em que uma porta se abre, mas ainda não enxergamos quem ou o que está por vir. E nosso olho, fixo na fresta, se enche de fascínio e medo.

Nos segundos em que a porta fica entreaberta, as coisas não estão acontecendo ou deixando de acontecer. Elas estão escondidas no antes e no depois. E, esmagados entre o passado e o futuro, nós permanecemos até o vazio tomar forma.

Um pequeno espaço de tempo onde as coisas respiram e tomam coragem para derramarem-se sobre nós. E nós – curiosos, aflitos, cheios de ansiedade – aguardamos. Mas, entre um roer de unhas e outro, há uma reconfortante compreensão: se a maiúscula vier na letra esperada, teremos muito mais que uma nova frase.

Escaladas

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por Cassiano Rodka

Uma escalada sempre começa com os olhos apontados para as alturas.
Eu sempre tropeço e invariavelmente ralo o joelho. Tenho uma coleção de cicatrizes que funcionam como um mapa de momentos tatuados na pele. Algumas mais profundas, outras mais superficiais, mas todas parte de alguma dessas minhas escaladas. Não vivo sem elas. Vou morrer subindo uma montanha. É a única maneira que me vejo deixando esse mundo. Sabe-se lá qual pico deixarei de conhecer, mas não é isso que importa, é a necessidade de sair do solo. Eu preciso ter lama nos sapatos, sangue por entre os dedos. Não sei de onde tiro essa força que me faz continuar, mas ela está sempre presente na sola dos meus pés, na palma das minhas mãos. Uma aparente caturrice que acaba se revelando como pedra fundamental. Eu preciso disso. De cada montanha, de cada pedra e de cada cicatriz. E o que parece irracional para muitos, me soa tão natural. A mudança de direções, os caminhos arriscados. Desafiar o vento, ignorar a gravidade. Tudo isso me preenche e me empurra. E quando chego ao cume, sinto o melhor e mais paradoxal dos sentimentos. Alegria e frustração de mãos dadas. Chegar ao topo é alcançar a vitória e, ao mesmo tempo, chegar ao fim. A satisfação é inigualável. Observo tudo ao redor, respiro o aroma que paira no ar e me conecto àquele espaço enquanto ele é só meu. Mas e aí, e depois? Faz parte de todo final dar sentido a um novo começo. E é para lá que eu sigo. Com lama nos pés e sangue nas mãos. E uma vontade incessante de aumentar minha coleção.

O homem e a natureza

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por Cassiano Rodka

1º ATO – Alimentando patos no parque

Primeira regra: Nunca confie num pato. Tudo o que ele quer é comer às suas custas e nada será dado em troca. Qualquer tipo de nogociação será ignorada com um debochado “quá”. É bom ter muito cuidado na hora de oferecer o pão, alguns patos são agressivos, a gente dá a mão e eles já vão querendo o braço inteiro.

Segunda regra: Depois que der pão para um pato, ele espalhará o fato para todos os outros e, logo logo, vários virão para cima de você. Então, esteja preparado: tenha sempre à mão um pacote inteiro de pão. Ou um bastão de beisebol.

Terceira regra: Se um ganso aparecer para se alimentar também, não o ignore. Pare um instante e explique para ele que aquela comida é só destinada aos patos e que ele é um ganso, então não vai ganhar nada.

Quarta regra: Terminado o pão, não há mais papo. Muitos patos ficam insistindo em receber mais e não aceitam a ideia de que acabou. Não dê as costas a eles, pois podem ficar brabos e atacar. Use logo o taco de beisebol.

Boa sorte!

Vida virtual

vidavirtual

por Cassiano Rodka

Conheceu a moça pelo Orkut. Percorreu os traços dela com cuidado em cada uma das 5 fotos do álbum. Os testimonials descreviam uma amiga sincera e companheira, e as comunidades mostravam que ela tinha o mesmo gosto musical que ele. Adicionou a garota no MSN e não demorou muito para trocarem emoticons de amor. Ela o adicionou no Flickr, onde ele passou a ter acesso às fotos privadas dela. Sempre tão bela, a menina estava sempre impecável em cada retrato – mal sabia ele que essa perfeição era fabricada num tal de Photoshop. Ele gravou alguns vídeos apaixonados e publicou para todos verem no YouTube. Como resposta, ela postou um poema cheio de duplos sentidos no seu blog. Em uma semana, já dividiam um apartamento no Second Life. Tudo estava tão bom que ele estava quase cometendo o absurdo de convidá-la para sair na vida real. Mas antes que ele fizesse tamanha besteira, um amigo lhe avisou: havia visto ela agarrando outro no Fotolog de um colega. Era o fim. O amor, como tudo na internet, foi breve e acabou abruptamente.

Tudo

Tudo_2021

Tem vezes em que a gente olha em volta e crê que tudo é um saco! É tudo chato, repetitivo, batido, datado. E a gente se pergunta quando isso tudo vai acabar de uma vez por todas, e mais: afinal para que tudo isso, por que estamos aqui? E a resposta não vem. Não nesses dias, ao menos. Ela chega naquelas outras vezes. Nos dias em que a gente acorda com vontade de fazer tudo, de ler todos os livros, ouvir todos os discos e assistir todos os filmes. Mergulhar nas mais diversas culturas e inventar uma nova. Ou três. Conhecer todas as partes da Terra, explorar cada canto, compreender cada credo, cada ritual, ter todas as religiões. Não ter nenhuma. Ir a todos os shows e todas as festas, divertir-se por completo das mais variadas maneiras que há para se divertir. Conhecer todas as pessoas bacanas de todas as partes da Terra. Fazer sexo com aquelas especiais. De todas as formas possíveis. E das impossíveis também. Ler cada palavra escrita, escutar o som de cada instrumento, ver tudo que o olho puder tocar. Aprender tudo, compreender tudo e ensinar. E aí o tempo parece curto. E a vontade é de torcer os ponteiros dos relógios, entupir as ampulhetas, impedir o tempo de correr tão rápido e a gente sempre atrás. Estamos sempre atrasados. Para tudo. Mas nesses dias, tenho a impressão de que alcanço o tempo, que engano o passar das horas por alguns preciosos instantes. E compreendo tudo. E me vem uma vontade gigantesca de estender o braço e segurar o mundo inteiro com uma mão. Depois dar-lhe uma mordida na parte mais carnuda. Engoli-lo por inteiro. Não ser apenas parte dele, mas fazer ele parte de mim.

E isso é tudo.