Encontrado na praia

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Entre o mar e a cidade, havia um homem. Prostrado na areia, olhando adiante. Ele não estava aqui, nem lá. Habitava um não-lugar. Não era parte da paisagem urbana ou da metrópole do oceano. Os dedos dos pés agitavam-se entre os grãos, afoitos pelo movimento. A brisa batia leve, sem direção exata. O som das gaivotas questionava sua presença. Os pensamentos vagavam por entre as tatuíras e escondiam-se – misteriosos – debaixo das conchas. Sua sombra agigantava-se às costas sob o sol nascente. Seu reflexo desconstruía-se à frente no vai-e-vem das ondas.

Havia o mar. Havia a cidade. Entre um e outro, um homem foi encontrado na praia.

Jardim de estátuas

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Pouco importa o quanto tempo ficamos dentro da casa. Nosso destino ali era mesmo visitar o jardim.

Quando nos libertamos daquele espaço fechado, fomos surpreendidos por uma grande área aberta com diversas estátuas. Havia um círculo de esculturas em tamanho real, homens e mulheres acinzentados, com expressões faciais quase nulas, leves sorrisos nos rostos no que parecia ser uma grande festa. Eu nunca havia visto nada igual.

O jardim era imenso, tomado pelas mais diferentes figuras, todas com muitos detalhes, cada uma em uma posição diferente, um trabalho certamente de anos. As mãos delicadas seguravam taças, bandejas, cornucópias. Algumas figuras estavam nas pontas dos pés, como se estivessem flutuando, em êxtase. Haviam nos falado que era um lugar especial, mas não estávamos preparados para tanta beleza. Entramos em meio ao círculo, observando, estupefatos, a grandeza daquela construção. Uma das mulheres tinha sua cabeça pendendo no ombro de outra, um cansaço ébrio compartilhado. Um homem seminu bebia de um chifre com sua cabeça pendendo para trás para garantir que não sobrasse uma só gota.

A noite colaborava com o espetáculo. O céu exibia nuvens espiraladas, que pareciam ter sido moldadas especialmente para enquadrar as cenas compostas por aqueles seres inanimados. A festa a que eles pertenciam aparentava ser uma grande celebração, e nossas mentes trabalhavam em imaginar a que ou a quem ela era dedicada. Quanto mais andávamos por entre as estátuas, mais éramos tragados para dentro daquele universo. Era possível escutar os sons de suas risadas e o burburinho de várias vozes falando ao mesmo tempo. Aos poucos, fui percebendo a presença de alguns seres mitológicos misturados aos humanos, provavelmente a representação de deuses. Talvez a festa fosse para eles. Um ser metade homem, metade animal abraçava por trás uma mulher, segurando seu braço em direção a um cálice. Talvez a festa fosse regida por eles. Uma figura feminina com três olhos tinha seus dedos pousados nos ombros de uma mulher sentada com um bebê no colo. Ambas observavam silenciosamente a criança.

Sem dizer nada, minha irmã voltou-se para o caminho que nos devolveria à casa. Minha mãe pegou o meu braço e começamos a caminhar levemente, com um passo hesitante, dissipando com certa dificuldade o que havíamos contemplado naquele cenário.

Senti um movimento à minha esquerda. Outro logo em seguida, alguém correndo por trás de nós dois. Em um susto, vi com clareza um dos homens acinzentados passando apressado entre mim e minha mãe, nos separando por alguns instantes. Logo, várias estátuas ao meu redor botavam-se em disparada em uma mesma direção. Cada uma despertando no seu próprio tempo, mas todas com um desejo atribulado de sair dali. Repentinamente, uma multidão de figuras passava por nós sem grandes cerimônias, quase derrubando quem estivesse parado. O silêncio fora trocado pelo som de seus corpos se movimentando. Não se escutavam vozes, apenas movimento. Seus olhares e suas intenções continuavam incompreensíveis. Minha mãe estava um tanto assustada, mas ao mesmo tempo seus olhos brilhavam com um diletante fascínio.

Em meio ao tumulto, um estouro. Uma das esculturas havia tombado. Só então percebi que haviam diversas figuras descolando-se de algumas colunas que circundavam o jardim. Gárgulas tentavam alçar voo e despedaçavam-se aos nossos pés. O barulho tornava-se aterrador. Pedaços de pedra se acumulavam ao nosso redor, mas ninguém cessava sua deserção aflita. Não sei dizer por quanto tempo isso se deu, mas a sua interrupção pareceu tão repentina quanto o seu início.

Quando o silêncio tomou conta do jardim novamente, não havia sinal de nenhuma das estátuas. Em um mar de escombros, havia apenas minha mãe, minha irmã e eu. Abraçados, com expressões indecifráveis, em um semicírculo. Estáticos.

Um novo ano

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por Cassiano Rodka

Espero há quase duas horas.

Sentado em uma desconfortável cadeira, aguardo a vinda de uma enfermeira que parece a Bette Midler. Eu achei ela a cara da Bette Midler. A sala de espera parece ter uma mistura de pacientes, acompanhantes e crianças que não sabem bem o que estão fazendo ali. No ar, paira aquele clima tenso que parece ser uma regra em todos os hospitais.

Minha espera é coberta de angústia, talvez sem motivo, eu sei. Mas não gosto de hospitais. Sinto que as doenças estão à espreita nas sombras, aguardando minha distração para se jogarem na minha jugular. Me sinto disponível a todas elas, como se estivesse ali sentado esperando que uma me escolha.

O hospital tem um falso silêncio. Há vários barulhos ao meu redor, mas a gente se acostuma com todos e eles transformam-se em uma apreensiva trilha sonora. É uma maçaroca de vozes, choros, conversas, ruídos de aparelhos hospitalares e aquele tique-taque ameaçador do relógio…

Ouço a senhora ao meu lado comentar com uma jovem que já teve câncer duas vezes. A enfermeira que parece a Bette Midler surge na minha frente e eu me levanto. Opa! Ela sorri e diz que não é a minha vez ainda e leva, num semiabraço, uma velhinha com um andadouro.

Um jovem de boné e óculos escuros passa com uma receita na mão e (o que eu imagino que sejam) os seus remédios no bolso. Eles fazem um barulho de chocalho a cada passo, dando um ritmo fúnebre a sua caminhada. Não sei o que ele tem, mas a lenta marcha faz parecer que não seja nada bom. E eu continuo esperando.

Pode parecer bobagem, mas essa espera sempre me faz lembrar que estamos sempre aguardando pelo dia em que a nossa história acaba. Não acredito em ressurreição, portanto creio que quando tudo termina… Bem, termina de vez. Cada um de nós, da senhora com andadouro à criança que não sabe bem por que está ali, está em uma lenta caminhada em direção ao fim. Apocalíptico, eu? Talvez. Mas é verdade.

A enfermeira que parece a Bette Midler para na minha frente. Agora sim, é a minha vez. Eu a sigo, nervoso, numa marcha vagarosa parecida com a do cara de boné. Sinto um medo de sei-lá-o-quê, aquela incerteza do que vem pela frente. Escuto a maçaroca de sons, mais indefinida do que nunca. Com exceção do tique-taque do relógio…

“É aquela ali”, me diz a Bette Midler batendo a sua unha comprida contra uma janela de vidro.

E eu a vejo pela primeira vez.

Inquieta, mexendo as mãozinhas. Sua cabecinha pequenina tem pouquíssimos cabelos, os primeiros habitantes daquela carequinha lunar. O narizinho é tão minúsculo que mal aparece em seu rostinho. A boquinha, meio torta e babada, se movimenta como se já quisesse manifestar as suas primeiras ideias. Ela é linda. Não, sério! Ela é a coisa mais linda que eu já vi na vida. Eu olho incessantemente para ela e posso jurar que ela olha para mim.

E a minha vida recomeça.

Sociedade dos antissociais

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por Cassiano Rodka

Nossa organização começou de forma secreta. Parecia algo necessário, então alguém fez acontecer. Não sabemos exatamente de quem foi a iniciativa, mas também ninguém quis perguntar. O certo é que temos agora um grupo organizado e nossa voz será ouvida – caso algum dia quisermos falar.

Cansamos de ser repudiados pela massa comunicativa. Não almejamos ser expansivos ou carismáticos, nem queremos ser convidados para todos os seus eventos sociais. Estaremos presentes em casamentos e enterros, viajaremos no dia do seu chá de fraldas e estaremos doentes na noite de sua formatura. Não leve a mal, é a nossa natureza.

A verdade é que não compreendemos esse desespero pelo contato social constante. Apoiamos imensuravelmente as práticas solitárias, da literatura à masturbação. Se dependesse de nós, as salas de cinema teriam divisórias entre as cadeiras e as tele-entregas seriam feitas por robôs. Disponibilizamos um espaço para que os membros tragam esse tipo de proposta para tonar o mundo um pouco menos invasivo. Temos um local bem estruturado onde fazemos nossos encontros anuais. Dizem que é bem legal. Não sei, nunca fui.

Fazer parte de uma sociedade é algo novo para nós, portanto ainda temos muito a aprender. Raramente fazemos reuniões, pois ninguém aparece mesmo. As decisões são usualmente tomadas por e-mail ou por WhatsApp. Mas, de vez em quando, é necessário entrarmos em contato de forma mais pessoal. Aí usamos o Skype.

Os membros acabam se conhecendo mais por se encontrar por acaso na rua. Nos reconhecemos pela falta total de contato visual ou pelo desdém externado pelos extrovertidos. Às vezes, escuto um dizendo: “Esse aí é um antipático de carteirinha”. Quando olho de soslaio para ver quem é, percebo que é mesmo um sócio – ou antissócio, como preferimos chamar. Aí nos cumprimentamos com nossa saudação secreta: cabeça baixa e olhar isento. Depois seguimos cada um para o seu lado antes que aquilo vire um bate-papo.

Nosso dia há de chegar. Quando marcharmos pela rua, será só em pensamento. Quando levantarmos nossa voz, o mundo escutará um sussurro. Em nosso manifesto taciturno, só almejamos uma coisa: nada. Isso mesmo: NADA!

Apenas ignorem nosso grito e vão plantar batatas.

Dicas para chegar na parada certa

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por Cassiano Rodka

Não pare. Não agora. Não nunca. Restam sabe-se lá quantas paradas, mas o trem segue. Não desça no local errado. Acostume-se com o balanço da vagão. Não siga a maioria, cada um tem a sua estação.

Voe alto sem medo do calor do sol. Suas asas aguentam mais do que você imagina. Mantenha o coração adiante, a cabeça como um segurança. Quando cair, levante.

Chore. Não se impeça de vivenciar nada do que você está passando. Deixe o sentimento abraçar você e lhe despir do seu próprio peso.

Faltam sete paradas.

Não fuja do que você não entende. Olhe. Aprenda. Ouça. Experimente. Não engula tudo o que lhe alimentam. Cuspa o que não lhe apetece. Encontre os seus gostos. Saboreie.

Abra a janela. Alimente seus olhos com o que há lá fora. Inspire-se. Aprecie o que os outros produziram. Divida com eles o que você criou. Ninguém sabe fazer do seu jeito. Alguém precisa do que você inventa. Inspire.

Mais duas paradas.

Não arraste o cadáver do passado no meio da sala. Não alimente zumbis. Mantenha o seu cérebro seu.

Acostume-se com os predadores. Jamais se conforme em ser uma presa. Na água, nade dos tubarões. No ar, voe dos falcões. Na terra, fique longe dos filhos da puta. O mundo está cheio deles. Identifique-os. Afaste-se. Apenas deixe que eles lembrem você do valor dos que lhe amam. Costure-se neles.

Chegamos.

Você está na parada certa. Desça. Olhe ao redor e reconheça o valor de estar ali naquele momento. Respire aquele ar. Saboreie aquele silêncio. E ponha-se a caminhar.

Fora da estação, o sol já está se pondo.

O gato

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por Cassiano Rodka

Eu acordo sempre às 8h. Me espreguiço para trás e para frente numa espécie de yoga de gato. Acordo meu dono porque gosto de companhia. Recebo o primeiro carinho do dia (terão muitos mais adiante) e sigo com ele até a cozinha para comer a minha ração e tomar água. Brinco de pegar até cansar e aí volto a dormir. Durmo bastante, mas vario os locais, sempre focado em conforto e boa temperatura. Acordo e observo o mundo pelas janelas da casa. Como. Brinco. Durmo.

Não, não é uma vida extraordinária. É a minha vida. É o que eu faço todos os dias e me mantém feliz. Não é o que você procura para você. É o que eu encontro para mim. E reencontro todos os dias. Minha felicidade é um quebra-cabeças que eu remonto diariamente. Um pedaço aqui, outro ali, outro acolá. Ela está sempre presente, só é preciso achar as peças e usar cada uma delas. Não é pouco, é muito. A vida é simples, quem complica é você. Vai, experimenta! Você sabe onde estão as pecinhas. Vai lá, não é bobagem, monta o seu! E dá uma olhada na imagem que vai formar…

É lindo demais, não?

Como escrever: Um guia para iniciantes

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por Cassiano Rodka

Esses dias me perguntaram como eu faço para escrever. Me pus a pensar sobre o meu processo e percebi que, de fato, eu tenho um modus operandi. Eu sento e escrevo.

Estando cheio de ideias ou sem inspiração alguma, eu sempre faço o mesmo. Com uma caneta na mão ou os dedinhos no laptop, a metodologia não se altera. Eu sento e escrevo.

Cheguei a uma óbvia conclusão: o importante mesmo é o sentar. De pé, eu não escreveria. Sentado é perfeito. Deitado ainda vá, mas é meio complicado – vira para cá, vira para lá. Melhor sentar. E escrever.

A partir daí, comecei a focar minha atenção no que realmente interessa. Passei a investir em cadeiras. Tenho atualmente 17 cadeiras diferentes no meu apartamento. Cada dia escolho uma delas e levo para o escritório, onde eu sento e escrevo.

Isso sem falar nos móveis sentáveis que não foram realmente construídos para isso. Tem um balcão na minha sala que é ideal para aplicar essa técnica. Não é preciso arrastá-lo para o escritório, o local não faz diferença alguma. O negócio é sentar e escrever.

O método sempre me pareceu infalível. Mas, hoje, algo estranho aconteceu. Sentei na minha mais recente aquisição e… Nada. Esperei alguns minutos, tentei forçar as ideias a saírem… Nadica de nada. Sentei e não escrevi.

Não tive a menor dúvida, levantei e saí porta afora com a cadeira na mão. Na loja, botei a boca na vendedora. “Onde já se viu vender uma cadeira com defeito para um escritor?” Ela me olhou assustada, tentou se fazer de louca, disse que não entendia patavinas do que eu estava falando, mas para cima de mim, não. Só um pouquinho, né? “Senta aí e tenta escrever alguma coisa!” Ela nem sentou, nem escreveu.

Ânimos acalmados, fui convidado a me retirar do local por dois seguranças nada simpáticos. O gerente, com cara de abostado, nem se coçou e ainda ficou parado me olhando como se o louco fosse eu. Não trocaram o produto defeituoso, nem devolveram o meu dinheiro. Nunca mais volto lá! E vou reclamar no Facebook! Frustrado, sentei na beirada da calçada e – adivinha! – escrevi.

O quartinho

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por Cassiano Rodka

A inspiração é, para mim, um quartinho. Quando entro nele, o mundo lá fora desaparece. E eu fico fechado no cubículo, flutuando no espaço, deixando as palavras fluírem. Posso passar meses no quartinho esculpindo histórias. Tempo não é problema, palavra errada é. Gosto da história, mas gosto mais ainda da roupa que ela usa. Um conto decotado é irresistível. Não é começo-meio-fim, é um redemoinho que te põe dentro da história de tal maneira que parar de ler significa ser catapultado a uma realidade a qual o leitor não mais pertence. A maneira que as palavras se ordenam para contar uma história faz toda a diferença. Eu sou aquela professorinha que organiza a fila, mas minha ordem independe de tamanho, tem a ver com fluência. Se for instigante que Joãozinho seja o primeiro e Fernandão o próximo de cabeça para baixo, assim será feita a fila. Sinto que é meu dever criar o redemoinho. Evitar a fila em ordem de tamanho, experimentar diferentes roupas em diferentes histórias. Deixar que sejam inspiradoras, ridículas, adoradas ou execradas. Desde que sejam redemoinhos. Que te suguem, te façam girar, te cuspam e te deixem zonzo. No fim do texto, tu talvez não saibas qual foi a história. Mas ela permanece contigo.

A artista e a arte

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por Cassiano Rodka

Sempre que tem uma exposição pronta, a artista sente-se totalmente despreparada. De seu mundo de tintas e cores, ela aterrissa em um território cinzento e alienígena. Mas o que ela pode fazer? Ela pinta um sorriso na cara e vai.

Fechar com uma galeria é sempre estranho, pois ela se sente cafetina e puta em um só coração. Alguns pedem que ela explique o trabalho, mas ela é artista e não tradutora. Ela não quer dizer nada com os seus quadros, ela quer que você o diga.

Durante a organização do evento, o que mais ocorre é desorganização. Ela rói as unhas, sofre por antecipação, quer que tudo dê certo – mas nada tudo certo dá.

No dia da estreia, ela passeia em meio às obras, tão inovadoras para os outros, tão velhas ideias para ela. Não que não se orgulhe de todas, mas sua cabeça já está pintando com outras tintas. Para a artista, o que é de hoje já expirou.

Enquanto seus quadros estão pendurados na parede, encontra-se ela também exposta. Sua visão emoldurada passa a ser analisada por outros olhos, que, por sua vez, terão sua própria visão. E quando encaram um quadro é como se estivessem olhando diretamente nos olhos dela. Mas cada um enxerga alguém diferente no rosto da artista. Ela é um gênio da arte, mas é também uma velha pretensiosa. É uma artista sem igual, mas parece que mal sabe desenhar. É um colosso e um lixo. As opiniões diferem tanto que se anulam. Para a artista, ela apenas é.

A beleza de sua arte surge na criação. O que é feito da obra depois já não é sua responsabilidade. E não importa que venham 800 pessoas ou 16 (a galeria discorda), ela mostra o que sente que tem que mostrar. Ela mesma assume que não entende essa vontade de abrir a cabeça e deixar as ideias derramarem-se pelo chão, de pendurá-las de uma maneira específica pelas paredes, de esperar que as pessoas encontrem algo entre um salgadinho e outro, entre uma tacinha de champanhe e dois beijinhos. Talvez seja essa a maneira dela dançar, de se despir na frente dos outros, de abrir os braços e deixar que lhe joguem ovos ou a encham de beijos. Toda obra é uma forma de nudez.

Quando o evento acaba, ela sente-se um tanto aliviada. Veste sua timidez, recolhe sua voz e retorna para o seu mundo.

Esta porra de cidade (Quando o amor dobra a esquina)

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por Cassiano Rodka

Eu sabia que não deveria ter saído de casa hoje.
Mas lá estou eu paradinha com cara de bunda na frente da padaria. Olhos arregalados, sorriso sem graça e um desejo irremediável de sumir. Na minha frente, você. Bonitão, mais magro e todo cordial. Era certo que em algum momento nos encontraríamos nesta porra de cidade. Mas tinha que ser hoje? Sem maquiagem, cabelo desgrenhado por causa da umidade, moletom de ficar em casa… Onde eu estava com a cabeça? A gente nunca sabe quem vai encontrar na rua. E, para provar isso, olha nós dois ali. Paradinhos. Você, todo lindão e simpático. Eu, uma mendiga monossilábica. Esta porra de cidade… Não dá para sair de casa sem encontrar alguém que já esqueceu de você. Eu realmente acredito que deveriam criar uma ilha para abrigar todos os ex-namorados do mundo. Nós aqui, eles do outro lado do mar. Mas lá está você, fingindo interesse no que estou fazendo. E eu gotejando “sims” e “nãos”, louca para entrar na padaria e enfiar a cara num quindim. E, como se não bastasse o brilho no olhar, percebo também algo cintilando no dedo anelar da mão esquerda. O Seu Vizinho de bambolê? Depois de seis meses de namoro? Filho da puta… Queria muito me convencer de que você não prestava mesmo, mas sei que não é verdade. Você é um cara legal. Só nos desconectamos em algum ponto do caminho. E parece que é hora de nos separarmos novamente, descruzar nossos olhares e liberar a entrada da padaria. O papo de 15 segundos pareceu ter meia hora. Não tenho ideia do que falei.

Mas logo o amor dobra a esquina.
E eu fico ali parada um tempo, sentindo a presença fantasmagórica do passado. Sim, você é um cara legal. Mas quer saber? Não pensava mais em você faz um bom tempo. Você estava guardadinho em um sótão na minha mente. Na minha cabeça, eu mantenho um álbum de fotos organizado com diversos instantes maravilhosos que passamos juntos. Mas, se eu for remexer nos negativos, tem muitas fotos não reveladas. É tão fácil recordar os bons momentos e dispô-los em um altar, varrendo os ruins para baixo do tapete… Ops! Uma velhinha esbarra em mim e percebo que continuo atrapalhando a saída das pessoas. Decido entrar na padaria para comprar um quindim. Esperando na fila, me percebo refletida no vidro do balcão. E eu gosto do que vejo. Sou eu. Sem maquiagem e sem você. Com meu cabelo desgrenhado e meu moletom de ficar em casa. E rio de mim mesma. Maloqueira e desbocada, sim. Sou eu, afinal. Foda-se. E, aos poucos, sinto a fumaça daquele encontro se dissipando, talvez proporcional à sua distância. E quanto mais você se afasta da padaria, menos eu me importo. Sim, você é um cara legal. Mas eu não sinto a sua falta. Eu realmente não quero estar com você. No momento, em frente ao balcão da padaria, eu só quero um quindim. Um quindim e sigo a minha vida. Quando chega a minha vez, a atendente sorri e diz: “Não tem quindim, moça”.

Esta porra de cidade…