Dicas para chegar na parada certa

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por Cassiano Rodka

Não pare. Não agora. Não nunca. Restam sabe-se lá quantas paradas, mas o trem segue. Não desça no local errado. Acostume-se com o balanço da vagão. Não siga a maioria, cada um tem a sua estação.

Voe alto sem medo do calor do sol. Suas asas aguentam mais do que você imagina. Mantenha o coração adiante, a cabeça como um segurança. Quando cair, levante.

Chore. Não se impeça de vivenciar nada do que você está passando. Deixe o sentimento abraçar você e lhe despir do seu próprio peso.

Faltam sete paradas.

Não fuja do que você não entende. Olhe. Aprenda. Ouça. Experimente. Não engula tudo o que lhe alimentam. Cuspa o que não lhe apetece. Encontre os seus gostos. Saboreie.

Abra a janela. Alimente seus olhos com o que há lá fora. Inspire-se. Aprecie o que os outros produziram. Divida com eles o que você criou. Ninguém sabe fazer do seu jeito. Alguém precisa do que você inventa. Inspire.

Mais duas paradas.

Não arraste o cadáver do passado no meio da sala. Não alimente zumbis. Mantenha o seu cérebro seu.

Acostume-se com os predadores. Jamais se conforme em ser uma presa. Na água, nade dos tubarões. No ar, voe dos falcões. Na terra, fique longe dos filhos da puta. O mundo está cheio deles. Identifique-os. Afaste-se. Apenas deixe que eles lembrem você do valor dos que lhe amam. Costure-se neles.

Chegamos.

Você está na parada certa. Desça. Olhe ao redor e reconheça o valor de estar ali naquele momento. Respire aquele ar. Saboreie aquele silêncio. E ponha-se a caminhar.

Fora da estação, o sol já está se pondo.

O gato

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por Cassiano Rodka

Eu acordo sempre às 8h. Me espreguiço para trás e para frente numa espécie de yoga de gato. Acordo meu dono porque gosto de companhia. Recebo o primeiro carinho do dia (terão muitos mais adiante) e sigo com ele até a cozinha para comer a minha ração e tomar água. Brinco de pegar até cansar e aí volto a dormir. Durmo bastante, mas vario os locais, sempre focado em conforto e boa temperatura. Acordo e observo o mundo pelas janelas da casa. Como. Brinco. Durmo.

Não, não é uma vida extraordinária. É a minha vida. É o que eu faço todos os dias e me mantém feliz. Não é o que você procura para você. É o que eu encontro para mim. E reencontro todos os dias. Minha felicidade é um quebra-cabeças que eu remonto diariamente. Um pedaço aqui, outro ali, outro acolá. Ela está sempre presente, só é preciso achar as peças e usar cada uma delas. Não é pouco, é muito. A vida é simples, quem complica é você. Vai, experimenta! Você sabe onde estão as pecinhas. Vai lá, não é bobagem, monta o seu! E dá uma olhada na imagem que vai formar…

É lindo demais, não?

Como escrever: Um guia para iniciantes

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por Cassiano Rodka

Esses dias me perguntaram como eu faço para escrever. Me pus a pensar sobre o meu processo e percebi que, de fato, eu tenho um modus operandi. Eu sento e escrevo.

Estando cheio de ideias ou sem inspiração alguma, eu sempre faço o mesmo. Com uma caneta na mão ou os dedinhos no laptop, a metodologia não se altera. Eu sento e escrevo.

Cheguei a uma óbvia conclusão: o importante mesmo é o sentar. De pé, eu não escreveria. Sentado é perfeito. Deitado ainda vá, mas é meio complicado – vira para cá, vira para lá. Melhor sentar. E escrever.

A partir daí, comecei a focar minha atenção no que realmente interessa. Passei a investir em cadeiras. Tenho atualmente 17 cadeiras diferentes no meu apartamento. Cada dia escolho uma delas e levo para o escritório, onde eu sento e escrevo.

Isso sem falar nos móveis sentáveis que não foram realmente construídos para isso. Tem um balcão na minha sala que é ideal para aplicar essa técnica. Não é preciso arrastá-lo para o escritório, o local não faz diferença alguma. O negócio é sentar e escrever.

O método sempre me pareceu infalível. Mas, hoje, algo estranho aconteceu. Sentei na minha mais recente aquisição e… Nada. Esperei alguns minutos, tentei forçar as ideias a saírem… Nadica de nada. Sentei e não escrevi.

Não tive a menor dúvida, levantei e saí porta afora com a cadeira na mão. Na loja, botei a boca na vendedora. “Onde já se viu vender uma cadeira com defeito para um escritor?” Ela me olhou assustada, tentou se fazer de louca, disse que não entendia patavinas do que eu estava falando, mas para cima de mim, não. Só um pouquinho, né? “Senta aí e tenta escrever alguma coisa!” Ela nem sentou, nem escreveu.

Ânimos acalmados, fui convidado a me retirar do local por dois seguranças nada simpáticos. O gerente, com cara de abostado, nem se coçou e ainda ficou parado me olhando como se o louco fosse eu. Não trocaram o produto defeituoso, nem devolveram o meu dinheiro. Nunca mais volto lá! E vou reclamar no Facebook! Frustrado, sentei na beirada da calçada e – adivinha! – escrevi.

O quartinho

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por Cassiano Rodka

A inspiração é, para mim, um quartinho. Quando entro nele, o mundo lá fora desaparece. E eu fico fechado no cubículo, flutuando no espaço, deixando as palavras fluírem. Posso passar meses no quartinho esculpindo histórias. Tempo não é problema, palavra errada é. Gosto da história, mas gosto mais ainda da roupa que ela usa. Um conto decotado é irresistível. Não é começo-meio-fim, é um redemoinho que te põe dentro da história de tal maneira que parar de ler significa ser catapultado a uma realidade a qual o leitor não mais pertence. A maneira que as palavras se ordenam para contar uma história faz toda a diferença. Eu sou aquela professorinha que organiza a fila, mas minha ordem independe de tamanho, tem a ver com fluência. Se for instigante que Joãozinho seja o primeiro e Fernandão o próximo de cabeça para baixo, assim será feita a fila. Sinto que é meu dever criar o redemoinho. Evitar a fila em ordem de tamanho, experimentar diferentes roupas em diferentes histórias. Deixar que sejam inspiradoras, ridículas, adoradas ou execradas. Desde que sejam redemoinhos. Que te suguem, te façam girar, te cuspam e te deixem zonzo. No fim do texto, tu talvez não saibas qual foi a história. Mas ela permanece contigo.

A artista e a arte

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por Cassiano Rodka

Sempre que tem uma exposição pronta, a artista sente-se totalmente despreparada. De seu mundo de tintas e cores, ela aterrissa em um território cinzento e alienígena. Mas o que ela pode fazer? Ela pinta um sorriso na cara e vai.

Fechar com uma galeria é sempre estranho, pois ela se sente cafetina e puta em um só coração. Alguns pedem que ela explique o trabalho, mas ela é artista e não tradutora. Ela não quer dizer nada com os seus quadros, ela quer que você o diga.

Durante a organização do evento, o que mais ocorre é desorganização. Ela rói as unhas, sofre por antecipação, quer que tudo dê certo – mas nada tudo certo dá.

No dia da estreia, ela passeia em meio às obras, tão inovadoras para os outros, tão velhas ideias para ela. Não que não se orgulhe de todas, mas sua cabeça já está pintando com outras tintas. Para a artista, o que é de hoje já expirou.

Enquanto seus quadros estão pendurados na parede, encontra-se ela também exposta. Sua visão emoldurada passa a ser analisada por outros olhos, que, por sua vez, terão sua própria visão. E quando encaram um quadro é como se estivessem olhando diretamente nos olhos dela. Mas cada um enxerga alguém diferente no rosto da artista. Ela é um gênio da arte, mas é também uma velha pretensiosa. É uma artista sem igual, mas parece que mal sabe desenhar. É um colosso e um lixo. As opiniões diferem tanto que se anulam. Para a artista, ela apenas é.

A beleza de sua arte surge na criação. O que é feito da obra depois já não é sua responsabilidade. E não importa que venham 800 pessoas ou 16 (a galeria discorda), ela mostra o que sente que tem que mostrar. Ela mesma assume que não entende essa vontade de abrir a cabeça e deixar as ideias derramarem-se pelo chão, de pendurá-las de uma maneira específica pelas paredes, de esperar que as pessoas encontrem algo entre um salgadinho e outro, entre uma tacinha de champanhe e dois beijinhos. Talvez seja essa a maneira dela dançar, de se despir na frente dos outros, de abrir os braços e deixar que lhe joguem ovos ou a encham de beijos. Toda obra é uma forma de nudez.

Quando o evento acaba, ela sente-se um tanto aliviada. Veste sua timidez, recolhe sua voz e retorna para o seu mundo.

Esta porra de cidade (Quando o amor dobra a esquina)

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por Cassiano Rodka

Eu sabia que não deveria ter saído de casa hoje.
Mas lá estou eu paradinha com cara de bunda na frente da padaria. Olhos arregalados, sorriso sem graça e um desejo irremediável de sumir. Na minha frente, você. Bonitão, mais magro e todo cordial. Era certo que em algum momento nos encontraríamos nesta porra de cidade. Mas tinha que ser hoje? Sem maquiagem, cabelo desgrenhado por causa da umidade, moletom de ficar em casa… Onde eu estava com a cabeça? A gente nunca sabe quem vai encontrar na rua. E, para provar isso, olha nós dois ali. Paradinhos. Você, todo lindão e simpático. Eu, uma mendiga monossilábica. Esta porra de cidade… Não dá para sair de casa sem encontrar alguém que já esqueceu de você. Eu realmente acredito que deveriam criar uma ilha para abrigar todos os ex-namorados do mundo. Nós aqui, eles do outro lado do mar. Mas lá está você, fingindo interesse no que estou fazendo. E eu gotejando “sims” e “nãos”, louca para entrar na padaria e enfiar a cara num quindim. E, como se não bastasse o brilho no olhar, percebo também algo cintilando no dedo anelar da mão esquerda. O Seu Vizinho de bambolê? Depois de seis meses de namoro? Filho da puta… Queria muito me convencer de que você não prestava mesmo, mas sei que não é verdade. Você é um cara legal. Só nos desconectamos em algum ponto do caminho. E parece que é hora de nos separarmos novamente, descruzar nossos olhares e liberar a entrada da padaria. O papo de 15 segundos pareceu ter meia hora. Não tenho ideia do que falei.

Mas logo o amor dobra a esquina.
E eu fico ali parada um tempo, sentindo a presença fantasmagórica do passado. Sim, você é um cara legal. Mas quer saber? Não pensava mais em você faz um bom tempo. Você estava guardadinho em um sótão na minha mente. Na minha cabeça, eu mantenho um álbum de fotos organizado com diversos instantes maravilhosos que passamos juntos. Mas, se eu for remexer nos negativos, tem muitas fotos não reveladas. É tão fácil recordar os bons momentos e dispô-los em um altar, varrendo os ruins para baixo do tapete… Ops! Uma velhinha esbarra em mim e percebo que continuo atrapalhando a saída das pessoas. Decido entrar na padaria para comprar um quindim. Esperando na fila, me percebo refletida no vidro do balcão. E eu gosto do que vejo. Sou eu. Sem maquiagem e sem você. Com meu cabelo desgrenhado e meu moletom de ficar em casa. E rio de mim mesma. Maloqueira e desbocada, sim. Sou eu, afinal. Foda-se. E, aos poucos, sinto a fumaça daquele encontro se dissipando, talvez proporcional à sua distância. E quanto mais você se afasta da padaria, menos eu me importo. Sim, você é um cara legal. Mas eu não sinto a sua falta. Eu realmente não quero estar com você. No momento, em frente ao balcão da padaria, eu só quero um quindim. Um quindim e sigo a minha vida. Quando chega a minha vez, a atendente sorri e diz: “Não tem quindim, moça”.

Esta porra de cidade…

O ciclo de vida das camisetas

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por Cassiano Rodka

À Laura, que faz parte da cadeia indumentária

Minha lembrança mais antiga é do apoio constante e reconfortante do cabide. Não há nada como ter um ombro amigo perpetuamente disposto a segurar as pontas e, esse tipo de suporte, eu sempre tive. Sentia que a vida seria assim: um eterno me veem, me tocam, me provam e me devolvem pro mostruário. Mas todo calendário tem um quê de caleidoscópio e, quando menos esperamos, estamos diante de um novo sei-lá-o-quê.

Quando me compraram, eu só saía do armário em dia de festa. Me vestiam com cuidado e eu me via no espelho umas duas ou três vezes antes de voarmos para a noite. Na balada, eu abalava. Recebia elogios dos amigos e carinhos desamassantes do meu dono. Não tinha para ninguém, éramos um só item.

Mas o tempo passa e nos amassa. E aí não há ferro quente que nos salve. Banida da estante, fui passada adiante. Nas mãos da prima, eu não saía da cama. Virei pijama. Meus dias de glória ficaram no fundo da gaveta da memória. Entre os meus, virei motivo de chacota. Não existe coisa mais triste nesta vida do que ser ex-preferida. Com a luz apagada, dormimos grudadinhas e sonhamos com dias melhores.

Contudo não há nada de ruim que o tempo não possa piorar. E o passado sempre fica mais bonito a alguns quilômetros de distância. Hoje em dia, não sou mais pijama. Desbotada, em farrapos, ganhei uma nova missão. Não me chamam mais de camiseta. Meu nome, agora, é pano de chão.

Davi e o piano

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por Cassiano Rodka

Cerrou o punho e golpeou o parceiro, massacrando duas teclas brancas e um fá sustenido.

“O que houve aí em cima?”, perguntou a mãe do menino. “Nada!”, murmurou ele. Davi sentia-se frustrado com a sua aparente incapacidade de absorver as aulas de teoria musical. Seus colegas dominavam com perfeição (na verdade, não) a sequência de notas do modo lídio. Para ele, era grego. Queria ter a destreza de um Stevie Wonder ao piano, mas… sem tanta aula, por favor! Quando pediu para que os seus pais o matriculassem em curso de piano, não sonhava que música podia ser algo tão… boring. Foi depois de assistir um show do Jerry Lee Lewis na TV. O garoto ficou fascinado pelas melodias que o músico parecia criar com facilidade. Davi passou a se imaginar em um grande palco, fechando a noite de um Rock in Rio, com uma multidão gritando seu nome… Mas, na prática, sofria para tocar os poucos acordes de “Imagine”. Aí pensava em John Lennon e o via sentado ao piano, esmurrando uns bemóis. “O que houve, John?”, perguntava Yoko, preocupada. “Nada”, murmurava o músico. Ele provavelmente havia estudado bastante para compor aquela canção (na verdade, não). Mas que chato era aprender o lado teórico da música, era como transformar um show em uma aula de matemática. Blerg!…

Como em todas as situações em que se sentia inapto, Davi deixou a concentração cair no sono e sua mente pôs-se a viajar. Distante, ele viu-se como um super-herói a desferir golpes poderosos em um vilão bastante peculiar. O malfeitor em questão possuía uma cara quadrada e dentes pretos e brancos que faziam diferentes ruídos ao serem amassados pelo punho do mocinho. Em uma associação aparentemente livre – daquelas que só esses momentos viajantes proporcionam -, o garoto enxergou-se sentado em sala de aula, fazendo exercícios de matemática, escutando o discurso do professor sobre como a prática leva à perfeição. Logo em seguida, estava na festa da turma onde beijou pela primeira vez uma menina. Depois gastava toda a mesada em fichas de fliperama, avançando cada vez mais nas fases do jogo…

Sem perceber claramente a imagem que sua mente produzia com aquela colcha de lembranças, Davi pegou-se mastigando um pensamento que temia acreditar: não estaria ele eternamente sentado em uma grande sala de aula com lições para resolver todo santo dia? Um tema de casa atrás do outro, com soluções que só ele podia aprender a resolver. Quantos beijos e quantas fichinhas são necessários para chegar ao final? Quantos vilões ele ainda teria que derrotar? Se a cada beijo ele se aperfeiçoar, a solução é beijar! Se a cada jogo ele se aproximar do final, por que não jogar? Se a prática leva à perfeição, o que fazer para a vida melhorar? Mas o quão óbvio podia ser? Viver, ora bolas!

Quando despertou de seu transe, como se uma tal de epifania lhe tivesse gritado aos ouvidos, Davi percorreu, com os olhinhos curiosos da infância, as linhas retas e enigmáticas da partitura e pôs-se a tocar, com muita vontade e muitos erros, determinado e debochado, melodioso e atonal, uma canção que não era exatamente a de John Lennon, mas uma recriação muito particular, tão cheia de vida e tão sua, que, mal sabia ele, era a sua primeira composição.

Caminhos opostos

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por Cassiano Rodka

Ele andava apressado em direção à casa dos pais. Não que tivesse algum compromisso, apenas seguia o ritmo naturalmente inquieto da juventude. Caminhava olhando para o chão, listando em sua mente as músicas que gostaria de incluir no seu iPod para a viagem do fim-de-semana. Havia baixado tantas bandas novas que, como era de praxe, não encontrara tempo para escutar.

Ela andava ligeiramente distraída, repassando em sua cabeça se havia separado todos os cadernos que necessitava para aquele dia de escola. Estava um tanto incerta em relação à dissertação que havia escrito na correria – quem dera tivesse ficado em casa em vez de ter ido ao cinema com as amigas no domingo. Mas agora, também, era tarde…

Ele lembrou que nem havia começado a organizar a sua mochila – coisa mais chata separar roupas para viagem! Mas, ao menos, já sabia bem quais revistas em quadrinhos levaria. Não existiria um só dia de tédio desde que ele tivesse a companhia de seus super-heróis favoritos.

Ela começou a lembrar do filme de domingo e decidiu que, no fim das contas, teria valido a pena assisti-lo. Azar da dissertação! Era tão bom ver um final feliz. Ainda mais com o seu ator preferido como protagonista. E ele estava ótimo naquele papel, além de tudo.

Ele levantou os olhos do chão instintivamente, sentindo que alguém vinha em sua direção.

Ela não havia percebido a figura que se aproximava até ele aparecer em sua frente.

O mundo parou por um segundo.
E os olhos se abraçaram.

Ela sentiu um frio na barriga e seguiu firme o passo. A expressão de surpresa parecia ter congelado em seu rosto. Apertou seus cadernos mais fortemente ao peito, como quem se protege de sabe-se lá o quê. Queria virar para trás e ver se ele havia parado, mas aquele pensamento era uma loucura, quem faria isso?

Ele sentiu um calor no peito e pôs-se a andar um pouquinho mais devagar. Sem saber ao certo como reagir, deixou seus pés seguirem sua torturante rota em frente. Que diabos havia sido aquilo? Ele olhou para trás uma, duas, três vezes seguidas. Mas ela continuava a se afastar. Teria só ele sentido aquela conexão?

Ela nunca tinha passado por algo assim. Os cabelos soprados pelo vento pareciam tentar carregá-la de volta ao encontro. E ela gostaria tanto de conhecê-lo, mas… Que disparate!

Ele mal respirava. O rosto dela já lhe parecia familiar, mesmo que ele só tivesse aquela polaroide mental estatelada em sua mente. Seria possível que a história deles se resumisse àquele segundo?

Ela achava que jamais esqueceria aquela fisionomia, mas, mesmo enquanto saboreava aquele pensamento, a lembrança do menino já se apagava de sua memória como um desenho feito com giz sob a chuva.

Ele hesitava a cada passo, queria interromper aquela caminhada insensata, mudar a sua direção, mas aquilo era uma tolice, um delírio. Essas coisas não funcionam assim.

Ela sorria e começava a criar novas versões para o final daquele encontro. Tão românticas, tão impossíveis. Por que essas coisas não acontecem como nos filmes? Ah, se ela fosse a diretora daquela cena…

(E não era ela?)

Ele praguejava contra si mesmo por não ter feito algo. Mas o quê? Imagina se ele tivesse parado e falado com ela? Mas seria uma doideira inverter agora o seu rumo e sair correndo atrás dela. Ninguém faz isso! Se ao menos ele fosse um super-herói com o poder de parar o tempo.

(E não era ele?)

E ela dobrou a esquina de sempre em direção à escola.

E ele atravessou o velho semáforo até a casa dos pais.

E o mundo continuou o mesmo.

O que você faz faz você o quê?

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por Cassiano Rodka

“O que você faz?”, foi o que ele prontamente me perguntou.

– Eu costumo fazer o que tenho vontade. Mas sempre chegam as contas e os telefonemas inoportunos e os compromissos sociais… Eu faço um prato que chamo de Lasanha Rio-Grandense, pois os ingredientes são pimentões vermelhos, amarelos e verdes. Eu paro o tempo do micro-ondas um ou dois segundos antes de terminar para evitar aquele bip bip bip irritante. Cheiro minhas mãos várias vezes após refeições manuais para conferir se lavei o suficiente a ponto de eliminar completamente o odor da comida. Eu vou no banheiro de 15 em 15 minutos depois de beber muita cerveja. Mato mosquitos com uma só mão – e me orgulho disso. Falo sozinho em inglês às vezes; muitas vezes faço um sotaque estrangeiro, só pela diversão. Confiro diversas vezes o que carrego no bolso e redistribuo os itens de acordo com função ou peso. Olho várias vezes o rótulo de um bom vinho tentando gravá-lo na memória, mas depois nunca lembro se gostei dele ou não. Quando pego o violão, costumo tocar um Mi ou um Dó para conferir se está afinado. Me alongo toda hora balançando os meus braços para trás e para frente. Constantemente procuro novos músicos e bandas, e mergulho profundamente no universo dos artistas que estou descobrindo. Aliás, isso serve para qualquer forma de arte. Quando eu amo, eu devoro. Sempre peço uma garrafa a mais de vinho do que deveria. Se bebo demais, acabo saindo das festas sem me despedir das pessoas. Mas sempre aviso pelo menos um amigo. Não sei costurar papo furado. Se estou entediado, está estampado na minha cara. Não rio quando não acho graça, mas não é de propósito, eu não consigo fingir mesmo. Em contrapartida, eu rio de coisas bestas. Acho a vida, no geral, engraçada de se observar. Falo pouco e as pessoas acabam me achando antipático. Acho muito mais simpático escutar do que não calar a boca, mas não tem jeito, elas esperam que eu fale mais. Quando destacam meu silêncio, eu fico mais quieto ainda. Sou super leal e acabo exigindo a mesma lealdade de volta. Fico puto se alguém que eu prezo me deixa na mão. Leio sempre o nome no crachá dos atendentes de caixa dos supermercados ou dos taxistas, isso humaniza, de alguma forma, a relação fugaz que tenho com eles. Choro sem vergonha alguma em plena sala de cinema ou escutando música no ônibus. Vejo malícia em tudo que é frase de filme ou programa de TV. Adoro escutar o que está tocando no supermercado. Sempre treino na minha cabeça aquilo que vou pedir para o caixa do banco enquanto estou na fila esperando, como se fosse esquecer o que eu preciso quando chegar a minha vez. Pensando bem, faço isso no aeroporto, no mercadinho ou em qualquer outra fila. Quando a música da festa está chata, eu canto uma que eu goste na minha cabeça em cima da batida. Eu danço usando muito as mãos, fazendo maracas invisíveis ou apontando para os cantos. Eu sempre cuspo na patente antes de fazer xixi. Eu me incomodo em pular ou interromper músicas que eu gosto, mesmo que o táxi tenha chegado, parece um desrespeito. Eu invento palavras que não significam nada em específico. Eu dificilmente chamo uma pessoa pelo apelido. Eu adoro receber amigos em casa. Eu faço o melhor Bloody Mary que eu já tomei. Eu não sou modesto, mas costumo desvalorizar o que eu faço. Eu sou super tímido, mas me sinto mega à vontade num palco. Eu sempre faço muitos planos, e constantemente me cobro a realização de cada um deles. Às vezes levo anos para realizá-los, mas isso nunca me incomoda. Eu não levo o tempo muito a sério. Eu não tenho medo de morrer, mas envelhecer me assusta. Costumo me imaginar morrendo ao salvar alguém heroicamente, mas acho que vou morrer de algum problema respiratório. Não consigo entender como alguém que não acredita em Papai Noel acredita em Deus. Arroto com toda força e turbulência possível quando estou sozinho. Sempre faço 500ml de café passado, mesmo que a maioria das vezes não tome tudo. Me dedico de coração a uma relação quando estou apaixonado, mas consigo sair facilmente dela quando sinto que entrei numa fria. Eu lembro das datas dos aniversários das pessoas que eu amo. Mas esqueço se me perguntarem. Eu adoro comprar camisetas e casacos, odeio comprar tênis e calças. Tenho uma mania de mexer nas unhas que, para mim, é como respirar. Sou super calmo, mas quando alguém me tira do sério eu sou capaz de traumatizar psicologicamente a pessoa pro resto da vida. Eu sou um apaixonado pela vida. Acho isso aqui incrível, não consigo me imaginar perdendo o interesse. Eu sinto-me estranhamente confortável com a instabilidade. Eu acredito que a beleza da vida está em saber lidar com as cartas em mãos. E não necessariamente fazer sequências ou full-hands, mas dobrá-las em origamis ou empilhá-las em castelos ou até mesmo queimá-las. Eu gosto de fazer o que eu teoricamente não poderia. Eu escrevo sem nunca considerar que o texto será lido. Depois vejo se dá para colocar no ar. Eu faço o que eu sinto que tenho que fazer.
E você?

“Eu sou advogado”, disse ele enquanto se levantava e deixava o bar.