Canção folk

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por Cassiano Rodka

Sou como uma canção folk. Simples e desnudo, me exponho a quem quiser me enxergar. Tenho meu coração estatelado no chão, transeuntes no celular. Meus dedos beliscam as cordas na tentativa de te acordar. Meus acordes ninguém escuta, mas eles seguem a cantar. Capturo o sol, vou de ré, que dó que dá. Meu si é sempre menor, minha canção eu sei de cor. Levo nas costas o violão, à espera de um trem que talvez nem venha me buscar. Passo no rádio da senhora, não no streaming do rapaz. Estou refletido nos teus óculos, ricocheteando no teu olhar. Os tempos são outros. Os outros, nem aí. Um dia, eu fui. Hoje, eu vou.

Se perdeste o trem onde eu estou, nosso momento já passou.
Lá de longe, eu sigo reto. Novo show.

Avisa o mundo

Avisa o mundo_P2

por Cassiano Rodka

Vai lá e avisa o mundo
Que tu tá preparado
Que não há nada que ele te jogue
Que não possa ser mastigado

Fala ali pra ele
Que tudo foi engolido
Sapo, príncipe, princípios
Tudo já foi transformado

Revela que todo mistério
Já foi por ti desvendado
Que não há truque ou mágico
Que possam fugir teu rugido

Diz tudo o que tu pensa
Sobre essa falta de rebolado
Baixa as calças do mundo
Deita e vira pro lado

Conto de fadas – Capítulo III

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por Cassiano Rodka

Achei que era carruagem, era carroça
Príncipe de nada, rei da troça
Sambando sem molejo, maldizendo a bossa
Achei que era carruagem, era carroça

Achei que era castelo, era palhoça
Um guerreiro tão belo, uma armadura que coça
Bancando o bobo da corte, mergulhando na fossa
Achei que era castelo, era palhoça

Achei que era permitido, talvez não possa
Dar a mão ao inimigo, fazer vista grossa
Então me ponho de castigo, era uma vez essa joça
Achei que fosse consumado, falha nossa!…

O segundo capítulo

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por Cassiano Rodka

Encontrei um livro atirado no meio do caminho. A capa era linda, o suficiente para eu me abaixar e pegar o exemplar. Comecei a ler e, logo no primeiro capítulo, fiquei fascinado com a história. O enredo era envolvente, os personagens prometiam um grande desenvolvimento psicológico, a interação entre eles era ótima, e a trama parecia ser diferente de tudo que eu já havia visto…

Mas aí a surpresa!… Não havia segundo capítulo!… As páginas estavam em branco. Sem uma palavra. Ah, a frustração!… Eu já havia me envolvido tanto, precisava saber para onde aquela história iria. Não contente com a falta de continuidade, decidi que era preciso tomar as rédeas daquela situação. Sentei na calçada e me pus a escrever. No início, parecia um pouco conturbado e eu não tinha certeza se eu daria conta de manter o nível do primeiro capítulo. Mas, aos poucos, a história foi tomando impulso. Os personagens eram excelentes e me ajudaram um bocado. Logo logo estavam a tomar suas próprias decisões, eu só precisava empurrá-los de leve com a ponta da minha caneta. O enredo se costurava tão naturalmente que era como se ele estivesse me controlando e não o contrário. Cheguei a pensar que nada que eu havia feito anteriormente poderia chegar perto de superar aquela história.

Depois de algumas boas páginas escritas, uma segunda surpresa!… Havia um terceiro capítulo! Depois de páginas e mais páginas de folhas brancas? Uma provável má impressão do livro. Talvez fosse esse o motivo de o terem abandonado no caminho. Sentei no meio-fio novamente e me pus a ler. Curiosamente, o capítulo começava com uma certa continuidade daquilo que eu havia escrito. Me deu uma estranha, mas boa sensação. Parecia que a história ia, de fato, tomar a direção que eu estava prevendo. Mas alguns personagens começaram a tomar atitudes que eu não esperava… A história se desdobrou por curvas inusitadas e eu não tinha mais o poder de contorná-la com a minha caneta para pô-la de novo no caminho que eu pretendia. Começou a ficar impossível de seguir aquela leitura… Uma tristeza se apoderou de mim e atirei o livro no chão. Segui em frente sem olhar para trás. Triste em saber que alguém, algum dia, o encontraria…

Este exato momento

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por Cassiano Rodka

Nada me encanta mais do que este exato momento. O inigualável sabor do início de algo que não sei bem ainda o que é, mas que será o que for em breve. É a luz refletindo na cabecinha do bebê que chega ao mundo chorando. É a primeira frase de um livro que reconheço que vou gostar já nas primeiras palavras. É Mrs. Dalloway indo ela mesma comprar as flores, é a busca pela Maga – encontrarei a Maga? – e são os olhos no teto, a nudez dentro do quarto. É como assistir um filme e torcer pelo herói que, veja bem, sou eu mesmo. É o primeiro registro da (provável) melhor viagem da minha vida. É o gosto do café às nove da manhã, o fechar dos olhos na última hora do dia. É o inaugural e incerto passo em uma outra direção. Qual? Outra. É o aceitar da transformação, o atrapalhado bater das novas asas. É o convite que te faço para entrar na minha vida, bagunçar tudo, mudar os móveis de lugar e achar teu próprio espaço no meu álbum de fotografias.

Deixa estar

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por Cassiano Rodka

Sei que estou apaixonado quando te vejo piscar. Num simples e natural gesto, me ponho a sorrir. Vibro estupidamente com o teu desaparecer. O teu sorriso manso, o teu silêncio longo. Sei que te amo porque não tenho a menor razão para te querer. Num coçar de barba, num esticar de perna, num respirar, me sinto maior. Me pelo em saber que posso te alterar. Clarear teu gesto, prender teu rosto, te apagar. Se nessa distância é possível te ter, deixo estar. E sigo cego a tatear; em um cálice vinho, em uma mesa de bar.

Encontrado na praia

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por Cassiano Rodka

Entre o mar e a cidade, havia um homem. Prostrado na areia, olhando adiante. Ele não estava aqui, nem lá. Habitava um não-lugar. Não era parte da paisagem urbana ou da metrópole do oceano. Os dedos dos pés agitavam-se entre os grãos, afoitos pelo movimento. A brisa batia leve, sem direção exata. O som das gaivotas questionava sua presença. Os pensamentos vagavam por entre as tatuíras e escondiam-se – misteriosos – debaixo das conchas. Sua sombra agigantava-se às costas sob o sol nascente. Seu reflexo desconstruía-se à frente no vai-e-vem das ondas.

Havia o mar. Havia a cidade. Entre um e outro, um homem foi encontrado na praia.