Três andares

Três andares_P2

Instruções para ler o texto: leia todo em voz alta. Quando houver parênteses, leia sussurrando.

São três andares e eu não vou sair vivo daqui.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém. Um lado leva a outro. Nada ao redor.

Revisando.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém
(porque eu não vou fazer um só som até você vir me pegar.)

Crossroads

Crossroads cachalote sem estrada_P2

Ao Chuck, trôpego e constante

Diante da encruzilhada de um novo modo de pensar, o mundo se revela imenso. Grande como um cachalote, crescente como uma avalanche. Os pés se fincam na terra e os olhos se enchem de horizontes. Como a chegada de uma onda na praia ou um novo livro na estante.

O descolar da bunda do sofá e o lançar-se porta afora são magnólias postas ao vento enquanto a chuva, inconsequente, chora. O simples andar na rua torna-se revolucionário e consistente. Como o bater dos dedos nas teclas de um laptop, como um cálice borbulhante.

Me ponho desnudo no asfalto com a fluidez de água corrente. Conecto-me com o adiante seduzindo a serpente. Maçã não é pecado e o paraíso está posto na gente. Não é um ato de vandalismo, é o saborear a semente.

Quando o vento bate, eu o sinto nas costas. Não tanto um empurrão, um convite. Nem pra esquerda, nem pra direita, pra frente. Sem soprar escolhas ao pé do ouvido, apenas dirigindo a caminhada a um horizonte distante. Um desafio colocado na testa e eu me encontro caminhante.

Com o sabor inebriante das incertezas, sinto o passo firme em um instante. Como um sapato novo, onde o conforto (ainda) não está presente. Deixo os dedos reclamarem e as solas tornarem-se um tanque. Em cada tropeço, estou eu, uma pegada adiante.

A canção de Fausto

A canção de Fausto_P2

De prazer em prazer
Quem é o próximo a entrar?
Fecha a porta e abre a boca
Não esquenta o teu lugar

Larga a máscara na entrada
E qualquer boa intenção
Deixa bater a porta
Mas não me mova o coração

Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?
Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?

De vazio em vazio
Quem te disse pra ficar?
Abre a porta e fecha a boca
Não espera eu ligar

Deixa a alma na saída
E o amargo da omissão
Larga de leve a porta
Mas não me leve o coração

Até quando eu vou seguir?
Perco a aposta pra ganhar
Até quando eu vou seguir?
E por quem eu vou cessar?

O início de algo

O início de algo_P2

Lá de longe, você olha para frente.

É uma senhora distância. Não dá para entender bem ainda se é uma subida íngreme ou uma vertiginosa descida. Nesse momento, só uma coisa é certa: você não estará mais aqui.

O pé direito firma o chão, o pé esquerdo dá uma hesitada. Entre passo e contrapasso, uma linha costura uma nova caminhada. Pronto! Você já está em movimento. Desamarrou a corda do que havia antes, saiu navegante em busca do depois. Curiosidade como um vento, confiança no quadrante. Bússola mais perdida que avó em fliperama. Mas a embarcação segue o seu rumo.

Não demora a fecharem-se umas nuvens e choverem imprevistos. Nunca tardam. E dê-lhe balde e remendo e guarda-chuvas. Mas há orgulho no suor e beleza no improviso. E olha ali você e você e você e você se multiplicando em quatro e segurando as pontas. Estica esse troço que vai!

Não esqueça de delegar bem as tarefas. Relaxar e curtir a jornada é vital. Deixa o fotógrafo fotografar, o escritor escrever e o folgado folgar. Aprenda a sentir o desequilíbrio como uma dança. A maresia, como uma criança. Teimosa, mas ela cansa. Quer vomitar, vomite. Chorar? Chore. Mas não deixe que nada suje a luneta.

Seria um raio de sol surgindo no horizonte? Não olhe muito que cega! Vai deixando ele chegar e observe o que ele está iluminando. Quanta coisa nova ao redor que você nem esperava alcançar. Vai se ajeitando no seu novo habitat, mas também não se acostume muito que a inércia cria mofo. Pare um pouquinho, respire esse ar fresco e curta a vista.

Lá do alto, você olha para baixo.

Canção folk

Canção folk_P2

Sou como uma canção folk. Simples e desnudo, me exponho a quem quiser me enxergar. Tenho meu coração estatelado no chão, transeuntes no celular. Meus dedos beliscam as cordas na tentativa de te acordar. Meus acordes ninguém escuta, mas eles seguem a cantar. Capturo o sol, vou de ré, que dó que dá. Meu si é sempre menor, minha canção eu sei de cor. Levo nas costas o violão, à espera de um trem que talvez nem venha me buscar. Passo no rádio da senhora, não no streaming do rapaz. Estou refletido nos teus óculos, ricocheteando no teu olhar. Os tempos são outros. Os outros, nem aí. Um dia, eu fui. Hoje, eu vou.

Se perdeste o trem onde eu estou, nosso momento já passou.
Lá de longe, eu sigo reto. Novo show.

Avisa o mundo

Avisa o mundo_P2

Vai lá e avisa o mundo
Que tu tá preparado
Que não há nada que ele te jogue
Que não possa ser mastigado

Fala ali pra ele
Que tudo foi engolido
Sapo, príncipe, princípios
Tudo já foi transformado

Revela que todo mistério
Já foi por ti desvendado
Que não há truque ou mágico
Que possam fugir teu rugido

Diz tudo o que tu pensa
Sobre essa falta de rebolado
Baixa as calças do mundo
Deita e vira pro lado

Conto de fadas – Capítulo III

conto-de-fadas-capitulo-iii_p2

Achei que era carruagem, era carroça
Príncipe de nada, rei da troça
Sambando sem molejo, maldizendo a bossa
Achei que era carruagem, era carroça

Achei que era castelo, era palhoça
Um guerreiro tão belo, uma armadura que coça
Bancando o bobo da corte, mergulhando na fossa
Achei que era castelo, era palhoça

Achei que era permitido, talvez não possa
Dar a mão ao inimigo, fazer vista grossa
Então me ponho de castigo, era uma vez essa joça
Achei que fosse consumado, falha nossa!…